Itália: A DERROTA – uma análise atenta e com boas pistas para entender o que acontece com a esquerda “intra-sistema” mundo afora

É evidente que a hecatombe da Sinistra L’Arcobaleno nas últimas eleições em Itália tem muitas explicações. Mas não há volta a dar. Em 2006 a Refundação Comunista teve 5,8%. Agora, coligada aos Verdes, à Esquerda Democrática (uma cisão da DS) e ao Partido dos Comunistas Italianos (uma cisão mais “ortodoxa” da Refundação), consegue 3,1% (estes partidos separados conseguiram no total 10,2%). Perderam quase três milhões de votos.

O desaste é acentuado pela lei eleitoral italiana. A barreira nacional de 4% para a Câmara e a barreira regional de 8% para o Senado, assim como o favorecimento dos pequenos que concorram em coligação maiores, leva a absurdos políticos. O Movimento para a Autonomia do Sul, com um terço dos votos da Sinistra L’Arcobaleno (apenas 1,1%), elege oito deputados e dois senadores. A coligação liderada pela Refundação não elege nenhum.

Não há ainda uma análise da transferência de votos. Parece evidente que a Sinistra L’Arcobaleno (Esquerda Arco-Íris,) perdeu muitos votos para a coligação entre o novo Partido Democrático (que juntou todo o centro-esquerda italiano), com a Itália dos Valores, do juiz Di Pietro.

Podem ser feita duas análises: a nova formação promovida pela Refundação foi vítima do voto útil de uma Itália polarizada em duas forças mais coesas do que o habitual ou foi punida pela sua participação num governo que pouco tinha a ver com ela. Suponho que, com uma descida tão acentuada, as duas serão verdadeiras. E temos de acrescentar uma terceira, talvez menos importante: concorreu com um símbolo novo e um novo nome, sem qualquer referência às suas componentes e ao seu líder histórico, ao contrário do que aconteceu com os restantes partidos e do que é hábito em Itália. Ainda assim, o efeito disto será marginal.

Com esta descida, é evidente que esta esquerda perdeu votos para todos: seguramente para a abstenção (que aumentou um pouco), muitos para o Partido Democrático e parece que também para o PdL, de Berlusconi, e até para a Liga Norte, do xenófobo Bossi.

A confirmação da primeira tese salta à vista: todos os partidos que concorreram fora das duas coligações foram punidos. A UdC (centristas democrata-cristãos), de Casini, apesar dos seus 5,6% para a Câmara, ficou muito longe do renascimento da outrora pujante democracia-cristão italiana. A lista do famoso Giuliano Ferrara, “Aborto, não Obrigado”, ficou-se por uns miseráveis 0,4%. Pelo contrário, os maiores vencedores foram os partidos de segunda linha que se aliaram aos dois gigantes: Liga Norte (mais de 8%) e Itália dos Valores (4,3%). Ou seja, os italianos quiseram dar força a blocos de governo mas dentro deles premiaram as franjas.

Mas tem mais interesse analisar a segunda razão do desastre. Até porque o voto útil não chega para explicar tamanha humilhação. Mais: para o Senado, onde o voto útil teria ainda mais sentido (a barreira em cada região é de 8%, enquanto para a Câmara, a nível nacional, é de 4%), a Sinistra L’Arcobaleno tem praticamente a mesma votação. Até tem mais um pouco: 3,2%.

Primeiro de tudo, devemos ter o cuidado de dizer que só pouco mais de metade dos cerca de 10% de votos que a Sinistra L’Arcobaleno deveria ter arrecadado pertenciam à Refundação. A punição foi geral, incluindo para os “duros” do Partido dos Comunistas Italianos, que nas últimas eleições tiveram 2,3%. O seu voto também se perdeu.

Mas a verdade é que a Refundação Comunista esteve num governo incaracterístico onde a sua agenda quase não pesou. Defendi aqui que, não sendo politicamente defensável a sua participação, ela era inevitável. Infelizmente na política as circunstâncias pesam. Seria melhor se a Refundação tivesse saído e feito cair o governo? Não sabemos. Mas pensemos nisto: o partido que fez cair o governo Prodi eclipsou-se nestas eleições.

O problema não é também o posicionamento ideológico da Refundação. A cisão mais à esquerda da Refundação, a Sinistra Critica (que curiosamente inclui no seu símbolo o símbolo do Bloco de Esquerda português), composta pelos ex-senador Luigi Malabarba, senador Franco Turigliatto, e deputados Salvatore Cannavò, Lidia Cirillo e Flavia D’Angeli, para onde podiam ter ido os votos de protesto, ficou-se pelos 0,46%. O protesto contra a escolha de Bertinoti tinha para onde ir. Não foi. Foi para lugares bem mais distantes.

A minha tese é outra e um pouco mais dramática. Alguns partidos cumprem hoje a função de tubo de escape do sistema. É para isso que parte dos seus eleitores os querem. E quando se aproximam do poder ficam apenas com o voto convicto, que é bem menor. O resto foge para outro pontos de protesto (aqui foi para a direita, que estava na oposição, e para a abstenção) ou para quem está convictamente no poder e beneficia da chantagem do voto útil. A ideia é que estes partidos cumprem um papel de fiscais, de forma de pressão. E não servem para mais.

Na realidade, os que, dentro dos respectivos partidos, reivindicam este papel e apenas têm como programa cumprir este papel até às ultimas consequências, julgando-se mais radicais que os restantes, não o são. Pelo contrário. Porque este é um papel perverso e sem futuro. Em vez de tentar mudar seja o que for serve de almofada para que tudo fique na mesma. Aliás, é por isso que estes partidos são muitas vezes punidos perante a pressão do voto útil. Quando alguma coisa está realmente em risco os eleitores debandam.

O caminho a seguir não é fácil. É construir programa, tentar ter efeitos práticos no destino da governação (seja no poder ou na oposição) e sofrer, quando assim tem que ser, as consequências dessa escolha. Até porque não há alternativa.

Claro que Itália não é o melhor exemplo para este debate. Itália tem Berlusconi e um sistema eleitoral surrealista. A Refundação não fez uma escolha. Não tinha escolha. Se suportasse este governo sem programa nem alma seria punida. Se não o apoiasse e entregasse o poder a Berlusconi também o seria. E o drama é exactamente este: ter partidos políticos a torcer para que nada dependa deles. Convenhamos que é pouco entusiasmante.

A pior notícia desta catástrofe é que ela apanhou a chamada “esquerda radical” num processo de transformação. A Sinistra L’Arcobaleno era uma experiência de alargamento, que incluia de comunistas mais “duros” até ecologistas mais moderados. Experimentada agora (talvez o momento tenha sido tacticamente errado), morre à nascença. Já morreu. E na Refundação começará a luta fratricida.

Os “duros” acham que este resultado prova a sua razão e acredito que até o celebrem. Eleitoralmente talvez estejam certos. Reconheço que eleitoralmente têm razão - apesar de valer a pena fazer uma análise mais fina - só não tiro daí as mesmas conclusões. Porque do ponto de vista estratégico a sua estratégia só pode levar a esquerda europeia para um beco. Porque não têm alternativa a não ser esperar que tudo corra mal na vida das pessoas para crescer momentaneamente. E que o voto útil se encarregue de levar tudo quando estiver em causa quem governa. E que no meio nada dependa realmente deles. E isso não é vida para quem quer melhorar a sua vida e a dos outros. E com isso não se constrói nada nem se cresce para o futuro.

Versão integral no Arrastão: os suspeitos de costume

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