Acerca de uma ordem de Uribe emitida por Chávez e outros desatinos –x Dax Toscano

O presidente Chávez está no seu direito de exprimir suas posições em relação a quaisquer temas. Mas não pode pretender converter-se no guia espiritual da luta de outros povos. Deve manter respeito e consequência com as organizações revolucionárias que demonstraram ser firmas na luta contra o imperialismo e as oligarquias crioulas na América Latina. Só os povos são os que decidem. Eles são os verdadeiros actores e sujeitos da mudança. Não os mecenas de qualquer tipo. O que diria Chávez se as FARC-EP ou outra organização revolucionária lhe pedisse que lhe possibilitasse a saída ao ar da RCTV? Ou o que faria se lhe exigissem que se isolasse de Cuba porque essa é a desculpa do imperialismo para perturbar a região?

Clausewitz disse que a guerra não é senão a continuação da política por outros meios. A FARC-EP são uma organização político-militar, não apenas militar. Parece que Chávez não quer recordar que quando as guerrilhas aceitaram negociar a paz e inclusive participar nos processos eleitorais da democracia burguesa colombiana, foram assassinados 5000 membros da União Patriótica. O que se passaria agora se os guerrilheiros chegassem a desmobilizar-se? Acaso não é uma lição o que sucedeu com o M-19? Não é um ensinamento o que aconteceu com os guerrilheiros na Guatemal e em El Salvador? Os paramilitares ficariam muito satisfeitos por matar seus inimigos desarmados. Chávez pede que as FARC-EP acabem com a luta armada sem perceber que os que têm o poder poderão continuar a fazer uso da violência sem que os outros tenham capacidade resposta. É um absurdo pedir que se acabe com uma estrutura organizativa popular criada com base no suor, sacrifício, dor e morte. Do mesmo modo é uma ingenuidade pensar que as FARC-EP devem desmobilizar-se para a seguir conseguir espaços políticos dentro da ordem burguesa. Isso fizeram-no os guerrilheiros do M-19 como Carlos Pizarro ou Navarro Wolf. As FARC têm um projecto mais amplo cujo objectivo é mudar a estrutura de um Estado fascistóide, corrupto, pro-ianque que mergulhou a maioria da população na pobreza.

É evidente que o presidente Chávez se encontra sequestrado pelo aparelho burocrático que o cerca. Há uma mudança completa na conduta do líder da revolução bolivariana. Sua prática o demonstra. Já não existe um contacto directo com o povo. As aparições públicas fazem-se nas grandes concentrações, bastante desgastadas, em coliseus ou avenidas onde o povo escuta passivamente os discursos de Chávez. O contacto directo com as pessoas, com a classe trabalhadora, não se dá. Os grupos próximos ao presidente são os burocratas oportunistas disfarçados de bolivarianos e, agora, também de socialistas. São os reformistas, representantes do chamado socialismo do século XXI, corpo de ideias elaboradas pelo senhor Heinz Dieterich, personagem chave no estancamento da revolução venezuelana e latino-americana que a todo custo tem pretendido evitar que a classe operária assuma o controle do processo revolucionário.

O isolamento do povo fez com que Chávez não compreendesse a dimensão das exigências populares, das bases revolucionárias, chegando inclusive a acusar esses sectores de serem os responsáveis pela derrota no referendo de Dezembro de 2007. Talvez pelo seu mal estar, não se deu conta de que os verdadeiros culpados – para além do imperialismo ianque, da CIA, da oposição fascista e da falsimedia que efectuaram uma poderosa campanha de terrorismo económico e mediático contra o seu governo – foram seus ministros, seus assessores e personagens servis que trabalham no governo. Também há que dizer com clareza que Chávez está inflado, o que o levou a manter uma cegueira frente ao evidente. O povo exige o aprofundamento da revolução e Chávez respondeu que é necessário reduzir o andamento do processo de mudanças. Foi Chávez que não compreendeu as exigências do povo e foi ele que não se colocou à altura das circunstâncias.

Cf. versão integral em: Resistir

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