Boris Schnaiderman: guerra e paz com Dostoiévski – ent. a Claudio Leal e Thais Bilenky

O tradutor corre ao livro. Um só livro nas pejadas prateleiras de seu apartamento. De memória, Boris Schnaiderman, 91 anos, recorre a uma escada metálica, inerte na sala ao lado. Célere, ele tateia a prateleira exata. De lá retira uma narrativa da guerra, sem errar as coordenadas geógraficas, numa destreza e intimidade com a biblioteca, que é também uma extensão do corpo.

Interlocutor de duas culturas, Schnaiderman ajudou a remodelar a recepção da literatura russa no Brasil. De sua mão parcimoniosa, saíram traduções diretas do russo de Maiakóvski, Pasternak, Dostoiévski, Tchékhov, Tolstói, etc. Em constante questionamento sobre a arte da tradução, aprimorada ao longo de décadas, o professor Boris faz da simplicidade uma de suas armas - e, provavelmente, escudo - na inteligência brasileira.

Ucraniano, naturalizado brasileiro em 1941, é o maior especialista em literatura russa no Brasil. Nasceu no ano da Revolução. 1917. Com pouco mais de um ano, ele se mudou com os pais para Odessa. Fugiu da perseguição aos judeus. Aos oito anos, ancorou na pátria definitiva. Integrou a Força Expedicionária Brasileira (FEB) e não se afastou dos debates políticos no pós-guerra.

Na pena de tradutor, ajudou a refinar gerações de intelectuais brasileiros. Traduziu, entre outras obras de Fiódor Dostoiévski, O eterno marido, Memórias do subsolo e Um Jogador. Para não falar dos romances seminais do escritor russo.

Essa intimidade com os demônios do existencialismo o leva a afirmar, em entrevista especial concedida a Terra Magazine, em São Paulo:

- Dostoiévski é o tipo do escritor que arrasta a gente, ao mesmo tempo que a gente tem que discordar, tem que se voltar contra ele. Quer dizer, às vezes traduzo algo que contradiz as minhas convicções mais profundas. Dostoiévski era um grande escritor, tinha aquela compreensão, aquela humanidade extraordinária, e ao mesmo tempo era racista, chauvinista, preconceituoso - diz Schnaiderman.

Leia a entrevista do professor emérito da USP sobre literatura, política, história, e coisas que tais.

Cf. versão integral em: Terra Magazine

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