BRASIL: Cidadania=gozo? EM BOA VISTA [e em milhares de cidades Brasil afora], ATO CIVILIZATÓRIO É COMER NA PRAÇA VENDO TV

Boa Vista, Roraima, é candidata a ser a Twin Peaks brasileira.

Twin Peaks é a cidade inventada pelo diretor David Lynch para um seriado de televisão que foi muito popular nos Estados Unidos.

A cidade em que nada é o que parece.

Foi uma alegoria que Lynch usou para falar da vida no interior dos Estados Unidos, em que sob a aparente placidez social existe um submundo sórdido.

O subúrbio americano, seja das grandes ou pequenas cidades, é o retrato do conformismo social.

O conformismo arquitetônico é literal: os prédios do McDonald's, do Bob's, do White Castle, do Wal Mart, do K Mart e de toda a parafernália consumista obedecem a um mesmo padrão.

É por isso que se diz que, tirando Nova York, São Francisco e Chicago, todas as cidades americanas são iguais.

Elas são organizadas para ser iguais pelo simples motivo de que servem para um único objetivo: o consumo.

Pais consumidores, filhos consumidores, cães consumidores.

São cidades de consumidores, não de cidadãos.

Os direitos dos consumidores estão acima dos direitos dos cidadãos.

Você pode trocar o eletrodoméstico que acaba de comprar pelo simples fato de que desgostou dele - mas não pode trocar o presidente que fez em seu nome uma guerra com a qual você não concorda, ainda que o eletrodoméstico não tenha matado ninguém e o presidente tenha matado o seu filho.

Em Boa Vista, Roraima, fui à praça central à noite.

No centro da praça central há uma praça de alimentação.

A praça de alimentação é coberta.

Em torno da praça de alimentação há oito aparelhos de televisão ligados na Globo.

As famílias saem de casa para passear, sentam-se na praça de alimentação e comem assistindo à novela.

O som dos aparelhos de TV se sobrepõe ao dos humanos.

A praça, a TV, o asfalto, os carros novos, as roupas de marca, o Bob's - Boa Vista é vitrine da civilização num canto da Amazônia.

No imaginário de Roraima, ela é o moderno.

Tudo o que a nega é o primitivo - os indígenas, por exemplo, que insistem em disputar a terra, em atrasar o estado, em não concordar com nossa idéia de país.

A barbárie travestida de ato civilizatório é o que liga nossa Boa Vista à Twin Peaks dos gringos. É roubar a terra do índio ou matá-lo em nome da modernidade.

Eu estava na praça de Boa Vista quando um personagem da novela Duas Caras, negro, se rendeu à superioridade branca gritando vivas à dona Branca e admitindo que "radicalismo não leva a nada".

Dona Branca era, para quem não viu, branca.

Nas palavras do autor da novela, Aguinaldo Silva, reproduzidas pelo jornal Extra: "Ele (o militante estudantil negro) vai se apaixonar pela burguesinha. E ela vai ensinar que o marxismo é mais embaixo".

No Brasil do Aguinaldo o útero branco livra o pênis preto da infecção marxista.

Ou quem é do contra é mal comido.

A redenção para os negros é o sexo com os brancos.

Cidadania=gozo.

Cf. versão integral em: Vi o Mundo, o Blog do Azenha

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