A CIA, a transparência e as “jóias da família”

Foi surpreendente a facilidade com que a mídia festejou, em meados do ano passado, feitos duvidosos como a súbita divulgação das “jóias da família” da CIA, a Agência Central de Espionagem dos EUA. Eram segredos de outro tempo (décadas de 1950, 1960 e 1970), com apenas uns poucos detalhes relevantes, aqui e ali, não revelados antes.

Ainda que seja sempre saudável recordar aquelas ações torpes o esforço de fato meritório em favor da transparência foi outro - o realizado em 1975 e 1976 pela comissão de investigação presidida pelo senador Frank Church (foto), responsável por 14 relatórios que chocaram os americanos e o mundo (conheça AQUI os relatórios). Ele devassou operações de espionagem, muitas delas ilegais, e abusos variados da CIA e demais órgãos da espionagem, inclusive o FBI (saiba mais sobre ele AQUI).

A oportunidade escolhida pelo governo Bush para voltar ao assunto foi suspeita. Entre outras coisas, desviava a atenção da série de quatro reportagens publicadas na mesma época pelo Washington Post, expondo o papel do atual vice Dick Cheney, com sua obsessão pelo sigilo e por ações ocultas que violam os direitos humanos e liberdades civis e ignoram a lei do país e tratados internacionais[...]

E os relatórios escondidos

Os esqueletos do armário que o governo Bush tentou requentar no ano passado pouco acrescentaram à façanha de Church há 33 anos. Ela foi possível em parte pelo clima favorável à transparência, em seguida a Watergate - o conjunto de escândalos que levou Richard Nixon à renúncia. Mas em 1981, com a mudança radical de rumo em meio à crise dos reféns do Irã, Ronald Reagan chegou à Casa Branca.

Como observou Amy Zegart - um especialista no assunto - na página online do New York Times, aquela imundície do passado ainda era leitura interessante, mas sem se saber o que houve de errado a 11/9 não haverá melhor inteligência. A investigação da própria CIA sobre isso, concluída há três anos, continua guardada a sete chaves, embora reclamada pelos dois partidos na comissão de Inteligência do Senado.

Ironicamente, é a mesma comissão de Church - antes era temporária, hoje é permanente. Reformas radicais na CIA foram propostas depois do 11/9 pelo general Brent Scowcroft, assessor de Segurança Nacional de Bush I (o velho), em relatório encomendado por Bush II (o filho). O relatório foi engavetado pelo ex-chefe do Pentágono, Donald Rumsfeld. E a julgar pelas “jóias da família”, disse Zegart, continuará escondido pelo menos até 2041.

Cf. versão integral em: Blog do Argemiro Ferreira

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