EUA – Obama: retorno da retórica à política?

Num post onde se questiona o significado da Retórica, Nuno Lobo escreve:

“Por tudo isto, é importante esclarecer o seguinte: a retórica de Obama é um fenómeno novo que supera a empobrecedora gestão técnica da coisa pública? ou é a retórica de Obama uma mera redução da política a uma técnica de conquista do poder?”

E o José Manuel dos Santos (um dos meus cronistas preferidos) ‘respondeu-lhe’ num artigo magnífico:

Nesta campanha verbal, Obama reabilitou a retórica política, dando-lhe um novo cuidado e uma nova apropriação. Foi esse o ponto de aplicação em que firmou a alavanca do seu triunfo. Ouvi-lo é voltar a ler a Retórica de Aristóteles. Ele convence porque argumenta (logos), porque emociona (pathos) e porque há um “eu” que diz “vós” e é reconhecido (ethos).

Ao fim de oito anos em que, na boca de Bush, a palavra política foi afasia, gaguez, balbucio, contrafacção e esgar, o discurso eloquente de Barack Obama parece um tributo aos oradores clássicos. Se Obama será eleito (há sempre quem se tenha viciado no esgar), veremos. Se, eleito, resistirá à lógica da máquina infernal, saberemos. Para já, a reanimação de um verbo político inanimado é o início de um início. Num mundo que parecia já não suportar começos, este pode ser um caminho que atravessa o deserto. Porque a dignidade da política começa na dignidade da palavra que a diz.

Platão pode ter suspeitado dos oradores públicos que pontificavam em Atenas (esta é a interpretação que tende a dominar o nosso entendimento da coisa), instituindo uma série de dualismos (razão-emoção, verdade-opinião), mas Aristóteles procurou reabilitar o seu significado na dimensão linguística que caracteriza a acção humana, a essência da política. Ao contrário do que muitos pretendem, a Retórica de Obama não não é (necessariamente) manipulação nem um mero adorno estIlístico; ela é o meio através do qual a palavra política transcende (o que é diferente de abandonar) a simples técnica e o palavreado árido dos especialistas. Ela corresponde ao momento em que entendemos que a verdade precisa de ser comunicada, pois não há logos (razão) sem o poder da palavra

Cf.: 5 dias

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