“Não se discute punição de militares”, no Brasil


Dedicada ao estudo das ditaduras militares no Brasil e no Cone Sul desde 1997, a historiadora Samantha Quadrat lamenta a falta de vontade política em abrir os arquivos militares e permitir maior acesso aos já considerados bens públicos. A especialista assegura que, diferentemente da Argentina, a punição dos generais "é uma discussão que não cabe no Brasil", país que foi o maior asilo político para os latinos durante a pioneira transição democrática. A entrevista está no Jornal do Brasil, de hoje. Abaixo, na íntegra:

JB - Pouco se sabe sobre o Brasil como destino de exilados latinos. Conte-nos um pouco sobre essa sua pesquisa.

Samantha Quadrat - O principal retrato que temos é dos brasileiros deixando o país durante a ditadura, mas o movimento contrário foi intenso. O Brasil foi o que mais recebeu perseguidos políticos porque no auge das ditaduras vizinhas, iniciava a abertura. Além disso, o país é grande, o que faz crer que a clandestinidade é mais fácil. As fronteiras eram ultrapassadas com carteira de identidade e permitiam ao exilado manter-se relativamente próximo da família que não fugiu.

Qual foi a nacionalidade que mais recebemos?

Argentinos, seguidos pelos chilenos e uruguaios. A primeira leva veio em 1966, quando o golpe de Estado do general Juan Carlos Onganía inaugurou a ditadura argentina. Eram, em sua maioria, intelectuais e idosos. Depois, com o endurecimento militar que culminou em 1976, vieram em massa profissionais, jovens e militantes políticos.

E o governo brasileiro foi receptivo?

Foi, mas com cautela porque, se por um lado, queria manter sua imagem perante a comunidade internacional, tampouco queria que o Brasil se tornasse um centro de reorganização da esquerda. Assim, a regra era aceitá-los, mas pensar como tirá-los o mais rapidamente do país.

Em sua tese sobre a Operação Condor, você teve acesso a documentos de quais países? Quais foram as dificuldades?

O Paraguai é sem dúvida o país que mais disponibiliza material para pesquisa, tudo pode ser fotografado. Na Argentina, a abertura impulsionada por Nestor Kirchner ajudou o processo. O Chile ainda é muito fechado, tive acesso aos documentos por meio de órgãos de direitos humanos. O caso brasileiro é misto. Os arquivos do Dops estão abertos separadamente em São Paulo, Rio e Minas, e os documentos da Divisão de Segurança e Informações (DSI) estão no Arquivo Nacional. Apesar de considerados públicos, muitos desses têm difícil acesso. Há casos por exemplo em que a autorização da família é requerida. Falta vontade política em promover acesso total aos arquivos, mesmo os catalogados.

O que resta pendente?

Os arquivos militares. Muitos documentos foram levados para a casa dos generais, que ainda assim insistem em dizer que os arquivos não existem mais.

Há alguma estimativa de quão grande é este arquivo?

Não, nenhuma, mas posso imaginar que seja muito grande pautada apenas pelos documentos enviados ao Dops, aos quais tivemos acesso.

O Brasil ainda discute a abertura dos arquivos enquanto a Argentina avança na condenação dos militares. Há espaço para punição no Brasil?

Não. Os parentes das vítimas são os únicos que apresentam essa reivindicação. Mas não há interesse da sociedade em punir ninguém. Aqui não cabe essa discussão.

O que nos distancia da Argentina?

O impacto da repressão na Argentina foi outro. Com mais de 30 mil mortos e desaparecidos, os parentes das vítimas se organizaram rápido e estão na luta desde o início. A violência brasileira hoje é tão grande que olhamos para os desaparecidos do tráfico. Além disso, a lei de anistia no Brasil foi muito bem costurada, de fato, cravou um ponto final. E o consenso social construído em torno dos militares se perpetua. Muitos militares, inclusive, viraram nome de rua. A Ponte Rio-Niterói é o nome popular para Ponte Presidente Costa e Silva. Avenidas Presidente Médici se repetem em todo o país. E o agente da CIA que ensinava técnica de torturas ao militares brasileiros, Dan Mitrioni, é uma rua em Minas.

Cf. versão integral em: Diário Gauche

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