O Bolsa Família e a defesa de tese: o que de pior pode acontecer a um veículo é ficar prisioneiro de teses que se revelam inconsistentes

É o caso de O Globo, depois do alarde que fez em torno das teses de Ali Kamel, de que o Bolsa Família só servia para aumentar os gastos supérfluos das famílias beneficiadas. O jornal tem punch de reportagem, um quadro de colunistas de bom nível (quando conseguem fugir do proselitismo), tem rigor na apuração do factual, mas a síndrome do prisioneiro das teses furadas faz estragos (clique aqui)

Manchete principal do jornal de hoje:

Fome atinge maioria dos que têm Bolsa Família
Pesquisa do Ibase mostra que dinheiro é gasto com outras despesas

Pronto, CQD (Como Queríamos Demonstrar).

O texto que acompanha a manchete explica:

"Apesar de beneficiadas pelo Bolsa Família, 20,7% das famílias inscritas no programa ainda passam fome e 34,1% sofrem com falta de comida em casa, segundo pesquisa divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase). O levantamento, em que foram entrevistados cinco mil titulares do cartão em 229 municípios, traça o perfil de consumo dos beneficiados e revela que, após a alimentação (citada em 87% das respostas), o dinheiro é gasto com outras necessidades, como a compra de material escolar (46%), vestuário (37%) e remédios (22%). Para o governo, está provado que o dinheiro chega a quem mais precisa. A situação dessas pessoas, segundo o governo, poderia ser pior antes da criação do programa, que atinge 11,1 milhões de famílias. Páginas 3 e 4". (grifo meu).

Internamente, a mesma coisa. Há um boxe com uma beneficiária do programa, informando que ela comprou geladeira e fogão, mas não tem carne. Como se geladeira e fogão não fossem eletrodomésticos essenciais para... comer.

Manchete e submanchete internas são do mesmo naipe:

"Eu até sonho em comprar carne"
Beneficiária do Piauí usa dinheiro para comprar geladeira, fogão e roupas

Nota: no quadro de consumo de alimentos se mostra que, para 61% das famílias, houve aumento no consumo de carne após o Bolsa Família. O destaque foi para uma família que não consome carne.

A reportagem constata que a geladeira da casa está vazia. Ora, é argumento em defesa do reajuste do Bolsa Família, ou não?

Os dados são assustadores sobre a miséria mas, principalmente, sobre o que seria a situação dessas famílias sem o Bolsa Família. Apenas 16% das famílias estão em situação de segurança alimentar e nutricional. 34% restringem a quantidade de alimentos. 28,3% ainda continuam com receio de sofrer insegurança alimentar no futuro. 20,7% sofrem de insegurança alimentar grave - ou seja, passam fome, adultos e crianças.

Um quadro dantesco desses permitiria uma belíssima matéria, humana, socialmente responsável, daquelas de envergonhar qualquer brasileiro, sobre a insuificência dos recursos para o Programa e sobre a insuficiência das políticas sociais para tirar quinhentos anos de atraso. E defendendo com todo o ardor a ampliação do Programa, como fator de cidadania básica.

Com esse material riquíssimo à mão, na semana em que morre uma das pioneiras das novas políticas sociais, o jornal se limita a pretender comprovar a tese do Kamel.

Bolsa Família e inflação

Na abertura de sua coluna (que não aparece na edição em PDF do Globo), Merval Pereira diz que tudo muito bom, tudo muito bem, que não se pode ser contra um reajuste que vai evitar a corrosão no poder aquisitivo dos mais pobres. Mas...

"O problema é que, com a inflação em alta, manter o nível de consumo desse contingente de milhões de brasileiros significa também manter a pressão inflacionária, tanto pela demanda quanto pelo aumento dos gastos do governo. Além do mais, essa indexação (...) que atinge os mais pobres pode gerar uma demanda generalizada pela indexação de reajustes".

Depois de escrever a coluna, Merval pode ter saído do Globo em seu carro novo (que consome aço, alumínio, geradores de inflação), ido até uma churrascaria (carne pressiona a inflação), tomado um bom vinho importado (que pressiona a balança comercial), chegado em casa, ligado sua TV de plasma e ligado na Net (um dos índices que mais pressionou o último indicador de inflação foi assinatura de TV a cabo).

Por Luiz Eduardo

A matéria da Folha online, com chamada em lide sob a "manchete" na UOL, vai na mesma linha e acha que o leitor é um idiota consumado, que não sabe fazer simples adições. A chamada: "28% dos que recebem o benefício temem passar fome, diz levantamento". Temem mas não passam, como se vê entrando na matéria. Nela, somente 21% se encontra em estado de "insegurança alimentar". Mesmo assim: "Não é necessariamente uma situação famélica como a que ocorre na África, mas são domicílios onde faltam alimentos em casa e, por isso, nem todas as refeições são feitas". Nem todos, logo fazem-se refeições. Sem o BF fariam tantas quantas fazem?

Os outros 79% de lares se enquadram em 3 categorias, em todas elas não há a tal insegurança alimentar, elegante eufemismo para o que Josué de Castro chamaria de fome mesmo.

A manchete correta deveria ser, pelo menos: "79% dos que recebem o benefício não sofrem de insegurança alimentar".

Como se fosse pouco tanta má-fé, soltam outro torpendo dizendo que muitas famílias que necessitam do BF não a recebem, enquanto algumas que estão fora dos critérios recebem. E depois informam que os dados citados na reportagem são de 2006 e que esses problemas foram corrigidos!

Isso nem se pode chamar de defesa de tese: é jornalismo dirigido mesmo, antijornalismo de 5ª. E a ABI dizendo que luta pela defesa da informação... Deste tipo de "informação"?

Cf.: Blog do Nassif

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