Preparem-se: a guerra de discursos já começou na Amazônia

Toda semana aparece alguém, seja político, militar ou empresário, reclamando de entidades não-governamentais que atuam na Amazônia, alertando para o risco delas tramarem a internacionalização da região. É claro que há muita ONG picareta cuja ação degrada as pessoas e o meio de lá. Mas há também muita gente fazendo coisas boas, que fizeram mais pela Amazônia do que uma penca de governos.

Contudo, o que me assusta é a cara de pau dos reclamantes, pois ninguém diz um “opa” sobre as dezenas de empresas estrangeiras que estão por lá, muitas degradando a gente e o meio, e que internacionalizaram a Amazônia há tempos. Boa parte da soja, da carne e do minério da região vai para fora, commodities que são produzidas para responder à demanda mundial.

Há gente séria, mas também grandes companhias que funcionam como nuvens de gafanhotos, comendo o que há pela frente, madeira, terra, água, minério, burlando leis ambientais e desobedecendo as trabalhistas. Alguém reclama disso? Nada, imagina! É o progresso, discurso impregnado entre formadores de opinião, mídia, parte da sociedade civil, que faz esquecer o que significa a expressão "dois pesos, duas medidas".

Ao mesmo tempo, o governador do Mato Grosso Blairo Maggi, diante das acusações de aumento no desmatamento, eleva o tom e faz chantagem. Traduzindo suas declarações: o país tem que escolher entre seguir as regras ambientais, e passar fome, ou desmatar - e garantir soberania alimentar. Como se houvesse apenas duas alternativas, o que convém a parte dos empresários que lucra fácil com a expansão agropecuária.

Que tal uma terceira alternativa? Uma que inclua um zoneamento econômico da região, dizendo o que pode e o que não pode se produzido, uma regularização fundiária geral, confiscando as terras irregulares, a realização de uma reforma agrária e a garantia que os recursos emprestados pelos governos às pequenas propriedades – as verdadeiras responsáveis por garantir o alimento na mesa dos brasileiros – sejam, pelo menos, da mesma monta que os das grandes. Preservar os direitos das populações tradicionais, cujas áreas possuem as mais altas taxas de conservação do país. Manter o exército na caserna e longe da política, como deveria ter acontecido na transição da ditadura para a república. Enfim, mudar o modelo de desenvolvimento, o que inclui alterar o padrão de consumo, uma vez que nós do Sul Maravilha comemos e bebemos a Amazônia e o Cerrado, arrotando alegria.

Preparem-se. A guerra de discursos apenas começou.

Espero que o sotaque americano que hoje fala pelo Plano Amazônia Sustentável não se esqueça de que a região não é de uns, mas de muitos, fugindo do maniqueísmo fácil do discurso do "progresso".

Cf.: Blog do Sakamoto

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