QUÊNIA: CIVILIZAÇÃO-BARBÁRIE: A crise pôs à mostra as tensões de classe que vinham aflorando de modo esparso há mais de cem anos – x Grupo São Paulo

Cerca de 1.500 mortos e mais de 300 mil refugiados, guerra entre etnias, casas incendiadas, mulheres violentadas: era este o saldo, no final de março, dos distúrbios que se seguiram às eleições presidenciais no Quênia, realizadas em dezembro de 2007, e que levaram à constituição de um governo de coalizão em abril deste ano. O estopim da violência: acusações de fraude eleitoral. No final de abril, foi assassinado o presidente da Aliança Nacional da Juventude do Quênia, braço político de uma seita declarada ilegal.

O Quênia é um dos países economicamente mais ricos da África, fundamental para toda a costa oriental do continente. Foi colônia da Inglaterra, interessada em minerais preciosos, madeiras e especiarias, entre 1890 e 1963, ano em que os britânicos foram expulsos e no qual a Inglaterra reconheceu sua independência. No início da década de 1950, surgiu o primeiro movimento organizado de independência e luta pela terra, sendo que desde o começo do século XX o Quênia já vinha sendo palco de revoltas contra os colonizadores. A organização como país é uma construção política decorrente da colonização, que usava também como arma a divisão de etnias aliadas e a união de rivais. Há, no país, mais de 50 tribos divididas entre sete etnias distintas.

A crise do Quênia "pôs à mostra as tensões de classe que vinham aflorando de modo esparso há mais de cem anos", segundo o jornalista Oduor Ong'wen, membro do Fórum Social Africano.

A realidade do país fala por si: na capital Nairóbi, dois terços dos habitantes ocupam apenas 8% da área da cidade, vivendo em favelas; mais de 63% da população urbana não têm acesso à água potável; dois em cada três quenianos sobrevivem com menos de um dólar por dia e grandes extensões de terra pertencem a alguns poucos, enquanto o número dos sem-teto e dos sem-terra aumenta cada vez mais, também por conta da violência durante o processo eleitoral – no final de abril, mais de 140 mil pessoas ainda viviam em tendas.

Cf. versão integral em: Correio da Cidadania

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