fim do neoliberalismo? ou o seu aprofundamento? O caso do trilhão de dólares transferido dos fundos públicos para a conta dos de sempre


O que dizer do atual processo de estatização de dívidas dos detentores do capital fictício pelo governo dos EUA? Não é o fim do neoliberalismo, é sim seu aprofundamento. Por três motivos:

(1) Tais políticas públicas reforçam a hierarquia de interesses do mercado no acesso a fundos públicos [700 bi de dólares de uma só vez, dentre outras transferências];

(2) sua distribuição ignora a prévia distribuição desigual e polarizada da riqueza socialmente acumulada [caso da transferência de fortunas pelo cassino financeiro de um mercado desregulado sob o mantra do there is no alternative];

(3) é impossível ignorar o conjunto de interesses privados em cena aqui – seja os do capital financeiro [externos à maquina do Estado], seja os do jogo de poder entre os funcionários encastelados nas instâncias decisórias legislativas e executivas [república do Texas, congresso, establishment ].

O que temos? Ao invés do keynesianismo militar que derrubou a URSS mediante a corrida armamentista, um perverso keynesianismo financeiro derruba os perdedores de sempre quando o jogo é decidido a favor do capital – afinal, quem pagará a conta do banquete é o mundo do trabalho, dos EUA e do resto do planeta.

Por que é financeiro esse keynesianismo, e não, segundo o discurso militante dos anos 80, voltado à satisfação de um patamar mínimo de necessidades sociais? Por falta de pressão socialmente organizada? Certamente que não, senão o keynesianismo original, estruturado pelo welfare state, não teria sido tão facilmente descartado das agendas políticas de governos e instituições multilaterais.

É quando nos lembramos de uma coisa: todo o jogo jogado recusa o recorte anticapitalista. Assumido o capitalismo como um todo verdadeiro a regular as formas de reprodução social, o resto é jogo de favas contadas, por ora e apenas nessa semana, na casa do trilhão de dólares debitados sabe-se como desde o fim do padrão-ouro como reserva de valor, e creditados na conta dos de sempre.

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