Esquerda Radical: o que resta?


Que a lavada tomada pelo que resta de esquerda no espectro político sirva para mostrar que política radical se faz junto às bases, no chão da sociedade, lá aonde rola o trabalho informal, a moradia precária, as filas disso ou daquilo outro, as ocupações, as periferias, as escolas ou universidades privadas de quinta categoria, a terceirização, o desemprego, o racismo, a ignorância e o silêncio passivo dos que apenas olham e abaixam a cabeça com medo.

Ao invés de macaquear as lutas parlamentares, por mais bem construído que seja o discurso político... a luta por votos, à massa que depende do próprio trabalho para sobreviver, faz todos parecerem farinha do mesmo saco, nada mais.

Nesse jogo de cartas marcadas denominado democracia burguesa, à maioria da sociedade, docemente massacrada dia-a-dia por porta-vozes da ordem instituída nas mídias oligárquicas e no lixo cultural em geral, uma maioria não raro à espera apenas de uma chance qualquer para participar do botim, o sentido da política funda-se apenas no tamanho do caixa dois e na eficácia da costura dos acordos de bastidores com interesses consolidados sob a batuta do dinheiro e do poder [do local ao supranacional].

A radical transformação do modo de fazer política exige o distanciamento das lutas por cargos públicos, sobretudo no executivo, mas não só.

Dada (1) a capitulação lulista às regras do jogo do grande capital em todas as suas frentes [MP assinada nessa segunda, sem sequer definir a operacionalização do troço, libera o BC já para comprar carteiras de crédito visando liquidez de bancos e empresas;
o fluxo das nacionalizações de dívidas bancárias mundo afora permite inferir que um Proer entrará em cena também por aqui?], e, (2) no campo da esquerda radical, dada a nossa escassez de recursos, de pessoal e, sobretudo, de idéias, pergunta-se [sob o risco de incidir na falácia do falso dilema]: por que a luta política priorizaria mediar ou administrar o jogo de interesses consolidados? a luta para administrar a coisa pública é mais relevante que o trabalho de conscientização coletiva e a longo prazo, sob diferentes formas e manifestações e seja lá o que isso signifique hoje?

Ou será que a ruptura que buscamos, levada adiante por forças sociais anticapitalistas, se dará administrando um Banco Central, as Forças Armadas, secretarias de bem-estar social e de animação cultural? Se dará mediada por tranqüila convivência com o Judiciário, as igrejas ou todos os grandes proprietários refastelados sobre séculos de privilégio acumulado graças à apropriação e espoliação privada da riqueza socialmente produzida, com a mediação do Estado, num processo que remonta a decisões e violências sistematicamente empurradas há mais de seis séculos goela abaixo do andar de baixo das sociedades?

Comentários

Paulo disse…
Está em disputa dentro da esquerda brasileira dois projetos básicos de construção do socialismo.
1.
O caminho passa obrigatoriamente por uma luta parlamentar, ainda que com intervenção das massas, com fins a execução de reformas que melhorem as condições de vida dos de baixo. Uma luta parecida com a do "saudoso" PT dos anos 70 e 80 do último século.
Ao conquistar reformas, na maior parte do tempo de natureza burguesa, cumulativamente, tais reformas nos levariam a um ponto em que, quando notássemos, o socialismo seria uma conseqüência. Esse é o projeto petista de tomada do poder que, mesmo fora do PT e da queda deste enquanto instrumento de luta dos trabalhatdores, exerce grande influência na esquerda. É o programa democrático popular.
2.
O caminho para a revolução é mais demorado, e um aumento no nível de consciência das massas é imperioso para a construção de um projeto socialista, em que a luta parlamentar assuma um papel apenas secundário. A luta por reformas será feita, mas com a consciência de que o momento político internacional impede que conquistemos melhores condições de vida para os trabalhadores sem uma RUPTURA estrutural com o capitalismo internacional.

A consequência da escolha do primeiro caminho é que acabamos por ter de dar respostas à população que não são necessariamente a verdade. Em uma disputa parlamentar a vitória é quase mais importante do que a construção de uma luta mais conseqüente e a disputa parlamentar tende a cair no jogo da direita, pois seria a que proporcionaria mais votos, mas este é sim uma disputa de cartas marcadas.

Escolhendo o segundo caminho, a disputa eleitoral se torna apenas mais um espaço de diálogo com a população(o período eleitoral é sabidamente o momento em que os trabalhadores estão mais abertos a dicutir política) em que se torna imperioso dizer a Verdade, não apenas com fins à obtenção de votos. Mas sim com a intenção de levar o debate dos socialistas ao maior número de espaços, elevando o nível de consciência das massas e tornando o debate socialista o mais onipresente possível. Há ainda uma conta que, por menos provável que pareça, o segundo caminho acaba por obter coeficientes eleitorais tão ou mais satisfatórios do que o descrito anteriormente.
Nesse contexto as eleições assumem sim um papel secundário. Mas não podemosa abrir mão deste momento e correr o risco de ver o projeto e o debate socialista sumir de lugares em que a luta socialista ainda não tem condições de chegar.
Não podemos esquecer também que em diversas situações é o mandato que dá condições para que diversos e valorosos militantes tenham condições objetivas(financeiras) para continuar com sua militância. Nenhum gupo político pode ser dependente do parlamento, inclusive para combater a coptação, mas necessitamos também de condições materias para levar a luta do povo.