Obama: malgrado tudo, seus efeitos na formação da psiquê a longo prazo



O cartum acima não permite ilusões acerca do que se pretende um retorno aos anos dourados do capitalismo regulado,
welfare state ou qualquer outra solução travestida de versão requentada do new deal.

C
onsiderando-se que só até o momento foram transferidos 27 trilhões mundo afora para o setor financeiro, não há margem para dúvidas: o andar de baixo segue transferindo rendas para o andar de cima e o aumento da polarização social às custas dos fundos públicos vai bem, obrigado.

A ausência de expressiva mobilização popular bem como a ausência de qualquer horizonte anticapitalista entre os que lidam com o atual ciclo de crises do modo capitalista de expropriação da riqueza social é fatal. Versões requentadas de análises, marxistas ou não, são até constrangedoras em sua impotência em produzir sequer uma narrativa do que está acontecendo mundo afora.

Por outro lado, o que a história recente mostra é um cenário devastador: esfarelou-se todo o reformismo que se passava por "esquerda democrática". O mantra da impotência e da adesão à agenda imposta pelos interesses do mercado é um só – desde o desmoronamento de agendas reformistas de Miterrand ou Lech Walessa, até o aprofundamento de reformas neoliberais pelos negros que assumem o poder após a queda do aparthaid ou por sindicalistas barasileiros, ex-guerrelheiros uruguaios e demais factóides pré-políticos latino-americanos que chegaram ao poder na América Latina.

No caso brasileiro, malgrado o capital eleitoral que viabilizaria sim decisões políticas de confrontar os mercadistas e oligarquias locais, o lulismo de resultados fundou-se numa real politik de alianças e aprofundamento das diretrizes liberais, sobretudo as fiscalizantes e monetárias meramente anti-inflacionárias devidamente assentadas em transferência da renda nacional via taxas de juros aos setores rentstas da sociedade [não custa lembrar: mais de 50% do PIB local é usado para pagamento de juros de títulos da dívida pública].

Contudo, com as eleições de um Mandela, Lula, Morales ou Obama, resta um aspecto positivo nisso tudo: o pretinho norte-americano, o "baianinho" [modo carinhoso como paulistas de todas as classes sociais, racistas a não mais poder, nomeiam tudo o que venha de Governador Valadares para cima, incluindo paraenses ou acreanos], o indiozinho boliviano, vindo lá da favela, pueblo ou morro, sete anos de idade, entrar na sala de aula, e encontrar um cara igual a ele, à sua família e aos seus manos lá no canto da sala de aula na escola, no alto, do lado da lousa, num retrato do presidente da república.

Os efeitos disso sobre o imaginário e as tramas do real com o simbólico é um processo que levará décadas até emergir em sua concretude, se houver mundo até lá. E se as medidas de repressão e criminalização da pobreza não os exterminarem de vez nos campos de extermínio do planeta-favela nesse meio tempo.

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Nota: superadas as razões de saúde um tanto imobilizantes, o Pratica Radical volta ao seu fluxo regular de comentários e críticas.

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