Despolitização das enchentes, PCC ou adolescentes analfabetos

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Como enfrentar a despolitização, pelas oligarquias midiáticas e partidárias, das catástrofes enfrentadas pelas multidões que habitam esse "contêiner infernal" que são as metrópoles?


O resultado de políticas públicas e opções políticas é naturalizado. Parece não haver história, nem passado, nem interesses por trás. Ligue a TV, leia a notícia, escute o governador ou o prefeito, e em todos os discursos o tom é o mesmo: são fenômenos naturais a serem lamentados.

Entre um anúncio publicitário e outro, os diversos efeitos de
políticas públicas conduzidas pelo Estado capturado pelo mercado, os diversos efeitos de decisões pautadas por diretrizes mercadistas, privatizantes ou gangsterizadas de política são noticiados como se fossem resultado da vontade divina.

Do caos paulistano nessa terça-feira a congestionamentos para muito além do horário do rush, dos adolescentes analfabetos titulados como aptos a prosseguirem formação em nível universitário ao surgimento e consolidação de máfias nos presídios sob o império tucano, da privatização do STF e da PF postos a serviço de Dantas et caterva à destinação de mais de 52% dos fundos públicos para a renumeração do capital financeiro... a lista é grande.

A criminalização da miséria, a privatização dos cuidados com a moradia, com o transporte, segurança e saúde públicas, a financeirização da economia, do Estado, da política, tudo isso desaparece, e dá lugar a narrativas de tragédias pessoais, operações tapa-buraco, muito ranger de dentes, reformas das praças e à defesa de soluções autoritárias como encarceramento e matança dos 3 pês, pobres, pretos e putas.

A cidade se reduz à dimensão do indivíduo, atomizado em meio a ilusões da autossufiência acalentadas pelo consumo de bugigangas, ou mesmo, apaziguado pela fantasia de um dia poder chegar lá, um dia que nunca chegará. Os que ainda conseguem satisfazer suas necessidades básicas se entregam passivamente ao jogo de faz-de-conta, à defesa da democracia formal e ao denuncismo seletivo sempre antiesquerdista.

Aos que se rebelam é garantido o desdém, o silêncio, a perseguição, o massacre. Os demais, como judeus a embarcarem nos trens da morte, somam-se como multidões urbanas, e assumem como inevitável a degradação de todas as formas de sociabilidade e compromisso supraindividual.

Como enfrentar a transformação da prática política em gestão do caos?

Como contrapôr-se à fantasia ou alienação gangsterizadas que legitimam tudo isso como barbárie anônima e sem sujeito porque ela pisoteará apenas o jardim do vizinho?

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