Ditadura Militar, 45 anos: vida nua e a recontagem dos mortos

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Propõe-se aqui um recorte que, ao invés de revisionista, é um passo necessário para conectarmos as demandas postas hoje à esquerda ante o colapso do capitalismo monetizado com as lutas sociais pré-64 e com uma apropriação crítica dos desdobramentos estruturais e conjunturais postos em marcha pelo Golpe de Estado e sua opção por radicalizar a expropriação selvagem do valor pelo capital.


O saldo de mortos pela Ditadura revela os mortos em combates, nos porões, na calada da noite, algo em torno de 380 assassinatos.

Ocorre que, com a Ditadura, abrem-se as porteiras para a imposição de políticas públicas que ignoram, reafirmam, ampliam e silenciam resistências e críticas à falta de saneamento básico, a negação aos mais elementares direitos à moradia, à saúde, trabalhistas, agrários, a negação de qualquer pauta que levasse à "satisfação do patamar mínimo de necessidades sociais", tal como se dizia nos anos 80.

É tempo de superarmos, pois, o recorte liberal clássico.

Os efeitos da Ditadura estendem-se para além da superfície encarnada pelo enfrentamento político, que, diga-se,
só ele já é bastante revelador e uma história sempre necessária de ser retomada [veja-se, hoje, a coletânea de manchetes estampadas nas capas de jornais no dia do golpe, organizada pelo Emir, por exemplo].

Hoje, contudo, ante tentativas como, dentre outras, do Lixão da Barão, de recontar a história, contra-ataquemos.

Recontemos sim a história.

E assumamos como referência os efeitos das políticas públicas, da repressão aos sindicatos de trabalhador@s, do
castramento de alternativas populares, da perseguição indiscriminada às lutas camponesas, a lista é longa.

Feita essa conta, devemos incluir todos os acidentes de trabalho por falta de proteção adequada, já que as novas direções sindicais pelegas nada mais diziam ou faziam.

A não-Reforma Agrária e a negação da justiça social no campo exige incluirmos todos os que padecem da concentração latifundiária, todos expulsos do campo, a incharem as periferias de Recife, Rio, São Paulo, Belzonte...

Por que não incluir todos os filhos daqueles a quem foi negada na porrada a reforma agrária, cujos descendentes até hoje morrem feito moscas em favelas, morros, palafitas, embaixo de viadutos?

Por que não incluir todos os que morrem sem atendimento hospitalar adequado?

E os milhares que morreram de meningite tipo A, que explode em 1974 sem que nada tivesse sido feito? Por que não contar como vítima da Ditadura os mortos vítimas da epidemia negada pelas autoridades da saúde, milhares vítimas da desinformação e com a imprensa censurada nada podendo noticiar? Sobretudo se considerarmos haver evidências do problema em 1971, sempre negadas para não macular o milagre brasileiro?

Quantos tiveram de morrer para viabilizar o milagre econômico levado adiante mediante apropriação dos fundos públicos para a satisfação de necessidades resultantes da associação entre o grande capital privado, estrangeiro ou nacional, e empresas públicas militarizadas?

Quantos foram os que morreram de fome entre 1964 e 1985?

Por que ignorar tantas mortes e que ilustram tão bem um conceito como vida nua?

Relegados à não-política, a alternativa é captura desse contingente social [multidão, massa, andar de baixo, como queiram] por idéias salvacionistas, excludentes e tidas, hoje, como "extrema direita", sempre muito habilidosa em lidar com emoções e instintos primitivos e selvagens.


Não é desprezível a mobilização social emancipatória e radicalmente transformadora que emerge dum processo político que evite o silêncio e reconstrua um sentido historicizado a tais vidas tão despojadas de tempo e lugar políticos.



cartum postado pelo Pedro Dória


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