Lulismo de resultados, politicismo, a perspectiva do trabalho, a crítica chasiniana da analítica paulista e perguntas sem resposta

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"A crítica chasiniana à analítica paulista", de Vânia Noeli Ferreira de Assunção e Lúcia Ap. Valadares Sartório, recém-publicada na Verinotio, uma revista online de educação e ciências humanas, retoma algumas idéias de Chasin acerca de um quarteto teórico por ele designado "analítica paulista", formado pelas teorias da dependência, do autoritarismo, da marginalidade e do populismo, com passagens pelo acervo crítico do Iseb, Cepal, PCB, dentre outros.

As autoras, de modo bem didático e sem baratear o que está em jogo, apontam os pressupostos imanentes às críticas dos que ignoraram a passagem pela particularidade local assumida pelo conflito entre as classes sociais envolvidas no confronto entre capital e trabalho no Brasil.

Tanto os teóricos do populismo, quanto os cepalinos / isebianos, quanto os analíticos uspianos, bem como a constelação de descendentes e filhotes deles todos, acabaram por perder o bonde conceitual da história, já que,
ao chafurdarem não raro em cenas de weberianismo explícito, tipos ideais e recortes segundo afinidades eletivas por elas elencadas, deixam escapar a particularidade posta às e pelas classes fundamentais!

O modo como Chasin reconstituiria os pressupostos não-assumidos liberal-democratas que organizam as leituras e críticas pré- e pós-64 é bem incisivo.

O quarteto teórico, de avassaladora influência sobre a esquerda brasileira até hoje, teria perdido o pé tanto da distinção quanto do nexo local mantido ante o capitalismo em geral, suas inscrições locais, a sua relação com classes dominantes e seus aparatos institucionais e ideológicos, uma carência pseudocompensada por oxímoros teóricos empirista-idealistas que não retomaremos aqui, e a cuja demolidora reconstituição
pelas autoras remetemos o leitor.

Para avançar, proponho uma questão: teriam as experiências dos trabalhadores no embate direto com a superexploração do trabalho fundamentado mediações meramente "politicistas" que viabilizaram aliança entre partidos aliados com o petismo/lulismo de resultados político-institucionais nos anos 89-2002?


E aí é que o artigo nos faz pensar, seja no "chão concreto", seja nas alternativas que aponta.


Pois houve quem, munido de recorte chasinista,
durante o ano de 2001, pré-Lula presidente, apoiasse Serra e se contrapusesse ao lulismo como ponto de chegada desse processo iniciado nos anos 80. Será que tal postura não incide também na prática do liberalismo com sinal trocado? Não implicaria assumir uma negação indeterminada da liberdade abstrata pressuposta pelos "novos personagens" envolvidos e produzidos num histórico de lutas antissistêmicas desde lá os anos 80? Não implicaria negar a experiência concreta dos autoinstituídos sujeitos no decorrer das lutas dos anos 70-90 ["quando os novos personagens entram em cena"]?

O que se viu, em 2001, então seria um debate em que todos os contendores, cada um a seu modo, incidiriam no limite denunciado por Chasin, o de instituir um cenário politicista para avaliar as relações de conflito entre os grupos sociais antagônicos?

O singular nisso é que estamos falando de um período em que todos estamos de acordo em acusar a direita de promover a despolitização da economia, tornando-a uma esfera cada vez mais "independente" do processo de lutas políticas e cada vez mais inacessível à alternância real no poder, um processo cujo ápice inicia-se com o desmanche monetarista-neoliberal do Estado e sua captura por interesses privatistas e financistas posto em marcha como pauta política por agências de fomento ou financiamento e grupos políticos representantes de
interesses econômicos hegemônicos em escala global desde meados dos anos 70. Um imbroglio que parece se passar em algum ponto distante da galáxia, caso nos detenhamos aos marcos do artigo [que, no entanto, o colocou sob mira telescópica ao refazer as linhas gerais da relação com o capital estrangeiro proposta pela teoria da dependência, porém, tal como o objeto da análise, deixa escapar (na conclusão que não foi escrita porque escaparia ao propósito das autoras?) a “possibilidade de traduzir teoricamente o laço real que ata o país ao capitalismo mundial”.

Voltemos, assim, ao artigo realmente existente, para repor, na esteira da leitura proposta pelas autoras, a exigência chasiniana de dar conta da "base material da existência": quando O'Donnell associa o perfil tecnológico do processo econômico em curso com categorias como autoritarismo, não estaria ele tentando romper a cisão entre economia e política?

E mais: se O'Donnell encontra essa aliança nos setores de bem de capital e indústria de base, como ficaria o resto do setor produtivo?

E novas perguntas podem ser formuladas agora: qual a verdade do que é posto pelo campesinato e toda a luta no campo, com seus pressupostos um tanto jacobinos e paulinos acerca da propriedade e da justiça/igualdade na terra, respectivamente? E quanto aos deserdados urbanos sem-lugar na exploração formal pelo capitalismo avançado mas com tempo e espaço assegurado e não-categorizado pela teoria social, marxista ou não, no processo produtivo e de circulação de riqueza?

Para usar as categorias de Chasin, esse contingente agrário e urbano é o "chão concreto" da "entificação" das relações de trabalho e do circuito de reprodução do capital, ao mesmo tempo, são conflitos e formas de apropriação da riqueza socialmente produzida da qual a parca etnografia produzida basta para desvelar como o solo místico mas estéril as categorias analíticas, empiristas, dogmáticas, liberais, revolucionárias, libertárias, fascistas, autonomistas ou qualquer outra que vise um efetivo e não-dogmático nem delirante processo de crítica, conscientização, mobilização e ruptura social hoje.

As autoras tiveram pleno êxito ao mostrarem a ingenuidade da defesa abstrata de algo como "democracia em geral" que passa correndo enrolada na toalha de ponta a ponta em diferentes palcos teóricos, bem como a ingenuidade de renunciar à "perspectiva do trabalho" ao criticar as formas de exploração social pelo capitalismo e seus agentes locais.

Encerram o texto apontando o laço de sangue que une PSDB e o PT, como os que capitularam diante da 'usina do falso' em que se constitui o capitalismo atual.

Como militante no confronto das idéias, o final do texto é combativo.

Aonde chegamos com a retomada das idéias do "quarteto nada fantástico"?

As autoras encerram a revisão proposta com uma defesa da "retomada da razão do trabalho, como potência central de uma dada ação política, que faz política para além da mera razão política".

E conduzem o leitor à defesa de uma ação política como "movimento social que visa à matriz e por seu meio o complexo da sociabilidade que ela engendra e mantém".

Até quando permaneceremos presos a mantras tão místicos quanto os arrefecidos corpus teóricos criticados?

Estendamos então a sugestão posta por elas: considerando-se o movimento social e matriz capital x trabalho dos conflitos, como entender e transformar o complexo da sociabilidade que engendra e mantém o PCC [não só o chinês, como também o que se faz presente nas periferias paulistanas], a mc'donaldização do ensino superior, o nerdismo consumista, o colapso da sociabilidade e a depressão como sintoma ou o planeta favela?

Ou serão meramente empiricistas os estudos e reformistas as práticas acerca dessas instâncias de produção de valor e circulação de seres sociais desmonetizados mas geradores de valor para além de categorias hegemônicas que servem para mostrar o fundo falso que sustenta tais práticas, mas que deixa escapar a verdade à qual elas servem?

Talvez os demais textos da revista, sabe-se lá se na longa entrevista de um lúcido Lukács aos 85 anos, e, por uma espécie de divisão intelectual do trabalho, avancem em direção a tais respostas.

Ademais, dentre todas as "particularidades" teóricas enumeradas, ficou de fora o analiticismo uspiano desdobrado, hoje, dentre outros, nos textos de Ruy Fausto, que, já fomos avisados, tem a pretensão de "nos iluminar" a todos os que se situam à esquerda do
status quo...


[NOTA: noves fora a impressão de tais leituras muito abrangentes correrem o risco de serem apenas um Reinaldo Azevedo com sinal trocado, mas essa já é outra história; acerca de quais leituras muito abrangentes essa nota se refere, aos meus 5 leitores resta a liberal-democrática, abstrata e alienada liberdade de escolha.]

Para encerrar. Numa carona com vários colegas do Seminário das Quartas, um dos colegas, que viveu boa parte do período coberto pela crítica chasiniana, tratando de outras questões, às voltas com sua participação em um debate organizado pelo C.A. acerca de democracia, sistemas de representação política e quejandos, estava a lembrar que, para o período pré-64, no debate político em geral, por exemplo, em cartilhas do PCB, inexistiam referências a democracia – quando muito, falava-se em liberdades democrático-burguesas, num sentido pejorativo e como anexo. E sequer a direita do período se preocupava com a questão, seu foco era antes a preservação das liberdades individuais. Prosseguiu meu interlocutor: tampouco consta que fôssemos liberticidas ou coisa do gênero, apenas a queda de braço na esquerda pautava o debate em torno de questões mais essenciais, como, por exemplo, a ruptura, revolução, transição para o socialismo etc. Valendo-me da pista sugerida, então falar hoje em democracia, ou tomá-la como categoria a organizar uma crítica, seria apenas mais um sintoma de o quanto a agenda burguesa estaria impondo ao debate categorias estranhas à tradição da esquerda combativa dos quadros pré-64. Retomo a conversa para me perguntar até que ponto a leitura de Chasin, nos termos propostos pelas autoras, estaria imersa nesses ares do tempo, ao encontrar uma noção imanente de democracia em sistemas teóricos que estão para além da democracia como conceito-fundante [parágrafo adicionado à 1:06h de 28 de maio].


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