Quando dogmas medievais se unem ao capital e às elites ultradireitistas que matam e esfolam, o que fazer?



Não tenho o menor interesse pelo que se passa no interior de uma seita ou por seus mitos.

Quando essa seita se vale de seus dogmas para impor a todos a sua medieval visão de mundo, então se torna um tema que interessa a todos por seu potencial político e desdobramentos.

Nesse sentido, textos como os desse dossiê da Carta Maior somam-se aos que, como esse,  repassam a história dos últimos nefastos capítulos vaticanos dessa história.

De saída, poderíamos ampliar o recorte, e iniciar a crítica ao islão, ao judaísmo ou aos ortodoxos russos e seus laços com as ultradireitas pró-mercadistas que subjugam seus respectivos rebanhos.

E perguntarmos: quando dogmas medievais se unem ao capital que mata e esfola, o que fazer? 

Não basta mais uma "crítica à religião".

Muitos já o fizeram, desde Münzer até Espinosa, nosso querido filósofo do XVII que teve de sobreviver como lapidador de lentes, após devidamente excomungado pela comunidade judaica, tido como O "mano capeta" pelos órgãos de repressão e censura nos séculos seguintes. 

Depois vieram os filósofos iluministas, a Revolução Francesa e os jovens hegelianos, estes, devidamente postos no seu lugar mediante as leituras atentas de um então "jovem barbudo", o qual destronaria o filósofo holandês do posto de "mano capeta" do imaginário ocidental após seu legado teórico passar a orientar as lutas políticas anticapitalistas desde então.

Da questão principal seguem-se muitas outras. 

O que seria a crítica à religião hoje, acossados que estamos por todos os lados com o fortalecimento de tantos fundamentalismos? 

Como lidar com o entrelaçamento de tantos fundamentalismos, 1) o político (a liturgia da "governabilidade" ultradireitista e antipopular, a impor choque e pavor a qualquer movimento coletivo antissistêmico que desponte, ao menos enquanto não seja capturável, castrado ou domesticado), 2) o econômico (a liturgia do "livre mercado", cuja precarização, flexibilização e informalização impostas pelos interesses do capital ao mundo do trabalho desmontam conquistas seculares aferidas pelas lutas e mobilizações nos  séculos XIX e XX) e 3) o religioso (a imposição  dos dogmas de facções ultraconservadoras, vitaminadas pelos poderes político-econômicos, que não titubeiam em perseguir, enquadrar ou massacrar alas moderadas ou levemente prrogressistas)?

Last but not least, como lidar com as referências midiáticas à movimentação antimodernidade desse papa que renunciou?

O tratamento midiático "neutro" dado a essas questões não é apenas sinal de anemia intelectual e crítica. 

É tomada de posição favorável ao desmanche deliberado de todo o legado emancipatório à custa de muito sangue de lutador@s derramado na defesa de bandeiras que, para fins didáticos (porque são anteriores e porque não se restringem a elas), podemos chamar de iluministas ou pós-iluministas.

Até quando denunciamos as intervenções da Cúria nas PUCs de SP ou Lima-Peru, a medicalização generalizada da angústia, a morte de gays, o estupro de vulneráveis, o que quer que seja, sempre encontramos o dedinho pré-moderno e anti-Iluminista de poderes religiosos no meio, tanto faz se institucionalizados como Igreja ou apenas como tábua de valores morais. 

Inclua-se na lista a gentrificação dos espaços urbanos pelo rentismo imobiliário e o desenvolvimentismo a massacrar comunidades ou formas de vida tradicionais. Afinal, a crença no progresso a qualquer custo é a apropriação laica de uma visão judaico-cristã de história segundo a qual a única certeza é o Reino da Bem-Aventurança, e o que estiver em seu caminho deve ser eliminado.

A enrascada em que estamos metidos é tamanha que, ao invés de tratarmos das lutas em defesa do socialismo na construção de novas relações com a propriedade e com os frutos do trabalho, somos levados a recuar ao Iluminismo para lembrar o quão regressiva é a ordem social imposta a ferro e fogo de modo cada vez mais generalizado nos últimas décadas.

Volta a pergunta: o que fazer?
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