Defesa vaticana das acusações de cumplicidade ante ditadura portenha do novo papa - a emenda saiu pior que o soneto?


(Luis Ricardo Falero. La Vizion de Fausto)

quanto ao "desmentido" vaticano das acusações de vistas grossas, para não dizer cumplicidade [o título do livro que as reúne, "El Silencio" conta histórias macabras] do atual Papa em episódios da ditadura argentina, três artigos, 
1) a qual publicação se refere a alegada defesa da inocência do papa? 
2) um pente fino nas obscuras relações tanto do então cardeal Bergoglio, em particular, quanto da Igreja na Argentina. Um retrato do qual emerge a figura, à época, no mínimo de um omisso e covarde, e nos anos mais recentes, dissimulado mas sempre a empregar argumentos de que se valem os defensores da ditadura.
3) uma apresentação mais superficial dos últimos acontecimentos, que me leva a pensar: só o fato de essa defesa ser necessária já mostra o quanto está conspurcado o trono papal...

Eis os textos.

1) Perfil e história do Página 12, cujo foco é outro, e pelo qual foi premiado até na Espanha

matéria linkada aqui apresenta breve histórico da tal "publicação anticlerical" citada nas alegações vaticanas quando pretendeu defender a inocência do novo papa das acusações de cumplicidade com a ditadura.

Cito um trecho:



"Em 2007, o ‘Página 12’ recebeu na Espanha o prêmio da Liberdade de Imprensa, instituído pela Casa da América, junto com a Chancelaria espanhola e o governo da Catalunha.

Motivo: a seriedade na defesa dos direitos humanos e o compromisso com o rigor da informação, requisito da liberdade de expressão.

No momento em que pairam sombras sobre o Vaticano, o que deve fazer essa cepa de bom jornalismo?

O ‘Página 12’ faz aquilo que em geral desagrada aos poderes terrenos e celestiais: investiga.

Ao contrário do que sugere o porta-voz da Santa Sé, o assunto extravasa o campo religioso e envolve uma questão política.

Um tema de interesse ecumênico universal, do qual o ‘Página 12’ não abre mão: o dever que todos, sobretudo as autoridades, tem de respeitar e fazer respeitar os direitos humanos e democráticos dos cidadãos."

E outro:

"O cardeal Bergoglio teria sido conivente com o sequestro de pelo menos uma criança nascida na prisão.

Procurado por familiares da desaparecida política, Elena de la Quadra, teria aconselhado: ‘Não busquem mais por essa criança que está em boas mãos’.

E desfechou sentença equivalente em relação às demais.

O ‘Jornal Página 12’ tem sido o principal eco desses relatos e dessa revolta, que muitos relativizam e gostariam de esquecer.

O que o jornal faz ao investigar as dúvidas que pairam sobre Francisco é coerente com o desassombro de um veículo que nascei justamente com esse propósito: não sacrificar a memória ao conforto das conveniências.

Pode soar anticlerical a setores da Igreja que gostariam de esquecer o que já se cometeu em nome de Deus nesse mundo.

Talvez se afigure assim, também, a certos círculos no Brasil.

Mas na Argentina, graças à persistência de trincheiras, como a do ‘Página 12’, a memória deixou de ser o espaço da formalidade.

Hoje a memória é vista como um pedaço do futuro. Um mirante poderoso para se entender o presente e superar o passado.


2) Diagnóstico incisivo, amplo e bem contextualizado acerca do prelado, tanto à época, como nos anos mais recentes, publicado aqui.


Mas é esse outro artigo que traz mais detalhes dos porões dessa história mal-contada.

3) considerações gerais acerca das alegações vaticanas, no Carta Maior, cf. aqui.

"Federico Lombardi se referiu nesta sexta à questão do Papa Francisco sem fazer a menor menção ao já provado: a trama montada pela Igreja para sustentar a ditadura argentina. Uma menção, ainda que fosse de desculpas ou reconhecimento, ou o anúncio de alguma futura audiência com as Mães da Praça de Maio ou com os defensores dos Direitos Humanos, teria sido, sem dúvida, mais nobre e acertado: teria provado que a mudança nas esferas vaticanas começava ao menos por esse caminho. Mas a Igreja é tão hermética na hora de admitir seus pecados quanto o é para administrar os seus fundos através do Banco do Vaticano."

E mais:

"Defendendo o Papa, Lombardi estendeu seu argumento ao resto da Igreja como se já não estivesse mais do que provada a implicação da hierarquia católica argentina e vaticana no ocultamento das violações dos direitos humanos e no conluio com os crimes da junta militar."



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