Os novos cercamentos moralizantes das subjetividades como o modo de o capitalismo lidar com multidões nas ruas insubmissas a desautorizá-lo cada vez mais

[hoje tô meio Safatle ao comentar essa nota de jornal]



Um candidato a senador querer proibir sexo oral nos EUA é parte da metástase que corrói as bases da hegemonia econômica do Império, e o duro é que essa metástase é antiga e não restrita aos EUA. 

No começo dos 80, quando eu estava acabando a graduação em direito e ainda sob o ditador Figueiredo, dos artigos do Paulo Francis às aulas de ex-prefeito filiado à Arena e professor na faculdade, de militantes de um certo então recém-formado partido à turma do bar ou em acampamentos selvagens no litoral paulista, todos ríamos da estupidez fundamentalista cristã deles. Isso lá no começo dos anos 80... E o que vimos? Tal estupidez desembarcar por aqui de mala e cuia na década seguinte, e, nos dias que correm, duas destacadas mili-tontas ambientalistas, aqui mesmo em nosso Senado, sem pudores e na maior desfaçatez com suas próprias trajetórias, assumirem como bandeira a defesa de valores e costumes radicais e anti-iluministas postos pela ultradireita norte-americana.

A metástase que é esse regresso ao medievo fundamentalista lá nos EUA é a metástase que o capitalismo, um regime despersonalizado da exploração do homem pelo homem, impõe para lidar com suas crises. 

Tais saídas para a crise são mais que cortina de fumaça ou desvio de conversa: sua luta visa travar as lutas pelo fim da apropriação privada dos frutos do trabalho socialmente produzido, travar a distribuição e planejamento racionalizado pelo poder popular visando uma nova metabolização democrática e socialista dos recursos, formas de viver e do fazer.

O rol de interditos tecidos, para além da mera ressignificação do que se entenda por Estado de Direito e seus limites, volta-se para a imposição de novos procedimentos para lidar com as insubordinações de uma força de trabalho cada vez mais arredia à miséria e carecimentos socialmente impostos e institucionalmente reproduzidos.


Esse moralismo todo é a efetivação de novos "cercamentos" no plano das ações individuais, a catalogar e disciplinar subjetividades e procedimentos não por seu potencial subversivo e sim para demarcar novas áreas para o controle e encarceramento de contingentes populacionais mais e mais urbanos, com segmentos nem sempre militantes ou conscientes mas cada vez mais arredios às formas clássicas de dominação. 

Estamos diante de formas de exploração econômica que se aprofundam e de formas de dominação política que não titubeiam em se livrar de paradigmas do liberalismo clássico – um exemplo é o trabalho forçado nas prisões privatizadas por lá, outra inovação que não tarda a desembarcar por aqui.

Esse é o desafio posto aos nossos tempos pelo aperto do garrote mais e mais cruel e violento.

Resta saber se vai conseguir castrar o potencial emancipatório trazido pelas marchas e ocupações de multidões insatisfeitas que já denunciam o sistema jurídico-administrativo que subjuga a todos como ilegítimo, mais que injusto portanto.


Não tarda o dia em que as forças policiais serão tratadas como tropas de ocupação de uma potência que não é estrangeira, e não é estrangeira porque é fruto de nossa resistência e insubordinação.

A lição a tirar disso tudo é que não há um "nós x eles", como Étienne La Boétie e Hobbes, cada um a seu modo, dentre outros, já o mostraram séculos atrás.

E qual é a lição? Que a força desses sicofantas a nos sangrarem mostra-se cada vez mais como a serviço de uma potência por ora soberana e autônoma, mas que, como estamos nos dando conta nas ruas mediante os conflitos por nós instaurado e a violência por nós padecida e que já atinge até o mais simples boquete, a lição é que tais forças e poderes autônomos a nos massacrar nada mais são que uma força autorizada e instituída por nós mesmos.


E, para não me deter numa pergunta que segue sem resposta para os dias que correm... "Que Fazer?", destaco aqui não ser por acaso que 'força', violência', potência' e 'direito' emergem instalados no mesmo patamar, o que seria um programa de pesquisa interessante, aliás, para dar conta dessa guinada que já tem mais de 40 anos, e cuja gênese nos leva de volta ao começo dos anos 70, marcados pelo retorno da crise de realização do valor sob o welfare state somado com a nova insubordinação das massas estudantis e trabalhadoras que começou a dar as caras por lá, num percurso muito rico e que precisa ser retomado para darmos conta desses novos cercamentos com os quais temos de lidar hoje em dia.

[10h37, pós-escrito: acabo de descobrir na Fôia de hoje um texto do deleuziano Peter Pál Pelbert em que se nota muitas confluências com o rascunhado acima, embora tecidas por outras vias e sob outros pressupostos, dentre as quais destaco (sem muito rigor da minha parte):

1) "("Anota aí: eu sou ninguém", dizia uma militante, com a malícia de Odisseu, mostrando como certa dessubjetivação é condição para a política hoje. Agamben já o dizia, os poderes não sabem o que fazer com a "singularidade qualquer")"

2: "Tem a ver com a certeza de que o transporte deveria ser um bem comum, assim como o verde da praça Taksim, assim como a água, a terra, a internet, os códigos, os saberes, a cidade, e de que toda espécie de "enclosure" é um atentado às condições da produção contemporânea, que requer cada vez mais o livre compartilhamento do comum. "

3. "Talvez uma outra subjetividade política e coletiva esteja (re)nascendo, aqui e em outros pontos do planeta, para a qual carecemos de categorias. Mais insurreta, de movimento mais do que de partido, de fluxo mais do que de disciplina, de impulso mais do que de finalidades, com um poder de convocação incomum, sem que isso garanta nada, muito menos que ela se torne o novo sujeito da história. "]


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Comentários

gilberto tedeia disse…
Sobre o recorte proposto por Pál Pelbert, a minha limitada leitura de Deleuze e Guatarri e dos teóricos da multidão e do comum soma-se ao 'pé atrás' que mantenho quando me deparo com a louvação do 'esquizo' em práticas e intervenções, em SP como em BSB, que realçam um modo 'antropofágico-tropicalista' de lidar com os conflitos e que se resume

(1) a arrombar as poucas fortificações erguidas por ocupações urbanas, movimentos de esquerda ou consciências insubmissas

(2) a ignorar tanto a 'potência-já-passada-ao-ato' faz tempo do "organismo repressor",

(3) quanto a ignorar uma coisa básica que é entender e lidar com os movimentos emancipatórios sem querer impor-lhes uma nova cartilha ou dogma fundados numa 'vida que pulsa' à revelia das resistências o obstáculos interpostos pelas castrações e repressões várias, em suma

(4) que se recusa a tecer mediações ou estratégias eficazes para lidar com o atual estado de coisas, malgrado a consistência ou originalidade do diagnóstico apresentado.

A ausência de tais mediações é que leva Pál Pelbert, sem evitar somar-se às apropriações hegemônicas da esquizo-política, a deixar em aberto o campo do lutas que busca dar conta dos bloquios e interditos a nós impostos quando afirma:

"Talvez uma outra subjetividade política e coletiva esteja (re)nascendo, aqui e em outros pontos do planeta, para a qual carecemos de categorias. Mais insurreta, de movimento mais do que de partido, de fluxo mais do que de disciplina, de impulso mais do que de finalidades, com um poder de convocação incomum, sem que isso garanta nada, muito menos que ela se torne o novo sujeito da história."

Entretanto, malgrado tais indefinições, pessoas morrem aos milhares diariamente sob a lógica esgarçada do poder soberano atravessada pela governamentalização e pela biopolítica, por um paradigma jurídico-administrativo que pode estar sem rumo bem definido, mas cujo garrote, alhures nomeado por belas-almas como "sistema poder-dinheiro", um garrote que universaliza o tratamento antes dispensado a escravos, colônias africanas ou favelados, mediante a transformação do planeta num grande 'campo' e de nós todos, favelados ou classes médias urbanas, em 'palestinos' gentrificados e matáveis.
gilberto tedeia disse…
O fato é: os que nos massacram não conseguem mais nos seduzir com o 'espetáculo' da mercadoria, cuja negação à maioria está a fazer água por todos os lados, sendo a viravolta brasileira mais uma volta nesse parafuso espanado do espetáculo que menos e menos seduz as multidões.

Ademais, os que nos massacram sabem muito bem quais os interesses de classe estão a impor (e dos quais a maioria dos pseudoartistas e pós-modernosos compartilham e usufruem, refinados que são).