ir para além do lulismo de resultados é jogar fora o bebê reformista junto com a água do banho das esquerdas?


O comentário do autor do cartum, nosso guerreiro Latuff, sintetiza a leitura corrente à esquerda da atual conjuntura: "O Brasil precisa URGENTE de uma alternativa de esquerda pra quebrar com esse círculo vicioso de PT e PSDB...". 

Para o que se segue, há menos "respostas" e mais "perguntas"; na verdade, também tento formular algo que não sai, sem clareza, sem saber direito por onde ir...

O fato é que chancelar sem mais o PT, a essa altura do campeonato, meio que confirma a disjuntiva e nada mais. 

As "jornadas de junho" trouxeram uma lufada de ar fresco a essa disjuntiva entre os "farinha-do-mesmo-saco" PT X PSDB. Mas jogar o PT fora junto com a água do banho da governamentalidade e da política como mera gestão pouco nos ajuda.

'Entre nós', os com 'sentimento' de esquerda, de fato é necessário irmos além, 'avançarmos nas conquistas' postas por reformismos lulistas de fancaria, e nos livramos dessa 'política de alianças' com agronegócio, capital financeiro e oligarquias diversas. 

Porém, o entusiasmo com as multidões ignora as muitas deficiências estruturais, uma das quais é que nunca houve por aqui uma "revolução burguesa".

É horrível o cenário que se abre: a correlação de forças não é um "fato da razão", é algo concreto, que nos imobiliza e com o qual temos de lidar, e, dado o jogo jogado, o pior dos equívocos é simplesmente rifar o PT como projeto que sucumbiu, erro análogo ao cometido nos anos 80 ante a história do PCBão, aliás.

Se comparado com o resto da América Latina, impressiona e muito a despolitização da política, meramente tecnicizada e contemporizadora, despolitização, no geral, também avançada pelo PT em seus, não dez, mas 24 anos de histórias no poder.

Essa foi a mensagem mais importante a ser destacada dessa ida das multidões a ocupar as ruas: não queremos mais isso do jeito que está.

O avanço à esquerda exige puxá-los, as multidões e o petismo no poder da sua união instável, carnal e ideológica, com o capital de volta para o barco da luta emancipatória e socialista. 

Um pouco foi isso que as mobilizações de anteontem, 11 de julho, buscaram com a Jornada Nacional de Lutas, sem grande sucesso, aliás.

Abre-se agora uma disputa pelo legado e sentido do que foi esse "junho".

Ocorre que as "jornadas de junho" também são disputadas por forças políticas que querem impôr um projeto que as nega, sem que "ameaças de golpe" ou besteiras do gênero precisem ser invocadas.

Vejamos. Não foi à toa que Alckmin deixou 25 pessoas fecharem a Av. Paulista pedindo a volta de militares ao poder (há 3 dias) ou 20 pessoas (metade delas engravatada e a dar entrevistas a TVs) fecharem um dos lados da av. Paulista, lá na altura do Masp, pedindo a prisão de mensaleiros (numa amena tarde de 3 sábados atrás). 

A conta não fecha: milhões querem avançar, milhares querem recuar. Não há equivalência nem quantitativa nem qualitativa entre os projetos em disputa nas ruas.

Tratar o petismo como morto (na forma, como no conteúdo) implica rifar a insatisfação generalizada com a impotência da política em definir um projeto de sociedade mais justa. 

Nivelar os agnulos, postes búlgaros e belos fernandos com a velha direita é jogar no colo dessa direita de sempre, de fato e de direito, a massa de pessoas indignadas e meio que perdidas, meio zumbis, a descobrir que a "voz das ruas" é forte: "se são todos iguais, melhor apostar nos que estão aí há mais tempo" parece ser a intuição que se consolida nos momentos históricos de ruptura ou tensões.

Sim, a voz das ruas é forte; mas quando a mídia não a apóia, nossa demonização é o mínimo que nos aguarda, como nessa jornada de mobilizações e lutas de 11 de julho. 

E qual bem o sabemos qual é o projeto que a mídia e a direita apoiam, como quando vimos, no tal 'gigante acordou', que parte expressiva dele é um troll nutrido por anos de bombardeio midiatizado e midiOtizante. 

A voz das ruas desse gigante de feições neenderthalescas foi incisiva: ante o que quer que ostentasse a cor vermelha, o massacre e o tratamento como "oportunista" jogou, num único balaio, o PT, o MST, o Movimento Negro, o PSTU, os anarquistas, o PSOL. Sobrou pancadaria vinda dos "sem-partido", ofertada até a transeuntes como aquela senhora espancada por... usar um tailler vermelho, e, junto com ela, ao cenografista que registrava ao longe o espancamento. 

Inexistem regimes fascistas sem apoio popular, e eles adoram banalizar as coisas com dilemas binários. 

Nossas disjuntivas bastante didáticas, como a do cartum do Latuff, abrem também espaço para outras tantas também bastante didáticas, como a que reza: sabemos que o bom regime é o forte, o que se apóia nas forças da lei e da ordem (eufemismo para truculência policial, prisões arbitrárias, censura à livre circulação de idéias e da produção artística, intelectual e científica, espancamento, tortura e morte de militantes, perseguição de tudo o que se passe por esquerda).

A banalização das nuanças entre projetos políticos reformistas neoliberais de esquerda como o petista, e os de fundamentalistas de direita assumidamente antissociais reforça o "modus operandi" político desses últimos, que se fortalecem porque sabem como nivelar tudo sob dois ou três dogmas e palavras de ordem. 

Estamos sim reféns da atual conjuntura, e em nada nos ajuda a mera lógica binária de demonizar o que nos é próximo (o lulo-dilmismo de resultados, neodesenvoimentistas e mercadista).

Tomar o petismo como equivalente à direita fortalece a disjuntiva armada desde 2005 com a "lavagem cerebral" imposta pelas seis 'famiglias' midiáticas que planta no senso comum, como uma lei da física, o mantra, com força de slogan: "a esquerda é corrupta e a direita não é" – pouco importa a frequência e magnitude dos escândalos em que esteja metida, sempre dezena de vezes maior que o mensalão, do qual o episódio da sonegação global é apenas o último capítulo dessa história cinquentenária. 

Tá, concedamos: também temos nosso dogma: somos contra a propriedade privada e a metabolização capitalista a se apropriar do trabalho socialmente produzido.

Mas quem nos acompanha em nossos raciocínios e práticas? Que fim levou a necessária acuidade em pavimentar a passagem que nos levará das limitações que temos ao futuro que queremos? Viramos milenaristas e não estou sabendo, bastando-nos apenas gritar a plenos pulmões nossos "devaneios" à revelia dos limites que nos travam a sua efetivação? Devanear é preciso, luta política não é o que preciso?

Uma alternativa é universalizarmos pautas e lutas por maiores acessos aos fundos públicos a mídias alternativas, a defesa do fim da propriedade cruzada dos meios de comunicação etc. e tal. outra, nos batermos de frente com o papel da polícia e o uso de armas, letais ou não, na contenção de manifestações ou ante "suspeitos" nos becos e periferias.

Pautas concretas ajudam a escaparmos da mera demonização do PT.

Do contrário, abrimos as portas do inferno e seu "pau no lombo da esquerda corrupta", com apoio popular e tudo. 

Pois bem: a parte da policialização e espancamento (de militantes nos centros, do povo preto e pobre, nas periferias) já está nas ruas. 

Falta só a "embalagem" institucional fascistóide que 'aperfeiçoará" a truculência. Pior ainda: sabemos que muito da "embalagem" fascistóide pós-64 sequer foi desmontada, malgrado habermasianos e petistas afirmarem o contrário. 

Da última eleição na Islândia à França ainda no mandato do Mitterrand, à divisão da esquerda seguiu-se o retorno dos assumidamente pró-mercado (hoje, meramente pró-capital fictício, o financeiro) e da retro-escavadeira dos ortodoxos a chacinar os poucos avanços sob o petismo...

No nosso caso, disjuntivas simplistas como as do cartum abrem espaço cada vez maior para os honestos cristãos defensores dos valores da família hetero-patriarcal-machista-misógina, da obediência às autoridades constituídas (fardadas ou não, o que inclui chefias e toda forma de poder local), dos bons costumes (geralmente medievais, pré-modernos e apolíticos) e do "meu direito de ir e vir" sem passeatas nem vândalos - e ai de quem levantar o dedo por mera pergunta.

No nosso caso, dado o que vemos na Europa e alhures, somado com nossas particularidades, o horizonte da direita é a aliança entre o fundamentalismo da ortodoxia monetarista e o fundamentalismo da teologia da prosperidade.

No nosso caso, a direita ainda não encontrou a fórmula para seu sucesso, mas graças às incertezas postas pelos conflitos no presente, os ogros políticos já se sentem à vontade em sair da caverna e defenderem soluções de força e antipopulares.

E então, a velha pergunta: o que fazer?

Minha impressão, por ora, é: a redução do momento político à mera demonização do PT abre espaço aos que acham que o xarope bom pra tosse precisa exterminar, da pauta política e fisicamente, os defensores dos direitos humanos, das liberdades, do Estado de Direito Realmente Existente, do aprofundamento das reformas, da supressão do capitalismo, da democracia direta, do poder popular and so on and so on an so on.


Já que a mentalidade política em vigor também nas "esquerdas" naturaliza o mero dualismo, ou partimos para uma pauta que unifique o que se toma por esquerda por aqui, ou o triunfo da lógica rasa binária imposta, que é o habitat dos fundamentalistas da direita e do capital, abre espaço para duas novas perguntas: 

(1) o que é preciso para que os petistas, anarquistas, bolcheviques, trotskistas, que por ventura saiam do facebook, do cargo no governo ou da militância no C.A./D.C.E e vão à luta concreta nas periferias e lutas emancipatórias anticapitalistas, somem forças entre si? 

Ou (2) será que perderá sentido de vez, aos remanescentes entre nós, sentarmos por uma pauta que avance algo, e só nos restará, derrotados e atarantados sob um novo fundamentalismo de direita no poder, o encontro nas masmorras e covas coletivas clandestinas que nos são outorgadas quando o pêndulo da história inclina-se à direita?

Uma coisa é certa: ai de quem achar, como é moda entre os que se tomam por intelectuais, que é possível "neutralidade". Serão os primeiros a perecer sob a poeira da história.

E permanece a pergunta: o que fazer quando a alternativa ao reformismo leva ao socialismo ou à barbárie? 

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