a esperteza engole o malandro, e a covardia engole o arremedo de social-democracia na periferia do capitalismo - e não só, claro



Parabéns a todos os envolvidos pelo reconhecimento conquistado, intersubjetivo e institucionalmente, pela sua estratégia de Correlação de Forças na gestão do circo.

Pelo que está se configurando, está se armando uma arapuca contra o lulismo [detalhes, aqui] por ter operado conforme as regras do jogo no mundo inteiro – basta lembrar os contratos mediados pelo vice do Bush para a "reconstrução" [eufemismo para recolonização] do Iraque que eles mesmos destruíram sob pretextos que nem Reinald@zeda ousa mais acenar, ou os muitos escândalos envolvendo a alta cúpula política e empresarial francesa nas últimas décadas, e que nunca deram em nada em seus respectivos países.

O que a direita tenta é fazer disso o último ato da esfarrapada ópera bufa e patética A Esperança Venceu o Medo, com seus recuos e acordos e negação do próprio libreto escrito com sangue e lutas, e não só desde os anos 70, nas ruas e movimentos sociais pais afora.

Dessa ópera ridícula encenada desde 2002, não foram poucos os que alertaram para a paga mais que previsível a todos os que apostaram em emancipação e lutas sociais subsumidas a Estado de Democrático de Direito Realmente Existente e Pactos pela Governabilidade em alianças com o pior da vida política, de fundamentalistas religiosos a agronegócio, de especulador no mercado financeiro a empreiteira.

Por contraste, basta ver os enfrentamentos, lutas e assassinatos políticos cotidianamente enfrentados, na gestão de seus mandatos populares, em países como Venezuela, Paraguay, Honduras, Bolívia, Chile ou Argentina. Em dois deles, Paraguay e Honduras, com direito à volta de gorilas militares ou seus esbirros civis ao poder em um golpe que uniu Judiciário e Legislativo locais. Há ainda os cenários atravessados por derrotas eleitorais mas sem o sacrifício da própria identidade política tecida nas lutas e conquistas, caso do Chile. E olha que em nenhum deles algo sequer radical como uma social-democracia clássica chegara ao poder, não foram poucos os recuos e conchavos denunciados, e em todos eles os militantes comunistas continuam comendo o pão que o diabo amassou nas mãos do poder.

E por que neles há o enfrentamento, sob risco de derrota? Por se recusarem a seguirem o script bovino petista, de conchavos e alianças regidas pela ficção de que todos podem ganhar, como se fossem possíveis vitórias sem lutas, omeletes sem ovos quebrados, redução da desigualdade no andar de baixo sem reações do andar de cima.

O raso horizonte consumerista dos envolvidos nutriu a fantasia de que, pelo ingresso do andar de baixo no reino da mercadoria, se conseguiria superar as mais que previsíveis resistências e boicotes e inversão da regra do jogo pelas oligarquias políticas e macroestruturais (e não apenas as econômicas) centenárias. O que se passou com Allende, para ficarmos na quadra local, não ensinou nada mesmo à turma do "mas-posso-negociar".

Deu no que deu: as decisões bisonhas e retrógradas impostas por cunhas e bolsonaros e a entrega do pré-sal aos americanos patrocinada pelo Çerra são apenas o começo do que vem pela frente.

E agora, como lidarmos com o colapso da ficção petista que se avizinha?

Não seja o mais-do-mesmo de frentes amplas anticonservadoras, já que o ciclo que se encerra pretendeu ser justamente isso.



Comentários