capitalismo à brasileira e o desafio à esquerda radical

Umas observaçõezinhas quase que externas à série "Tempestade Perfeita? A oposição de direita e os desafios para a extrema esquerda" [clique aqui], composta por três textos .

De saída, que a análise proposta representa uma boa novidade, ao discernir, no miolo confuso que aparece agregado sob o rótulo "governabilidade", o jogo de conflitos e oposições enfrentadas e o impacto das decisões governamentais nos interesses do capital sem se prender a descrição de manchetes de jornais ou declarações de seus representantes, porta-vozes ou analistas de mercado, o que por si só já desmonta a quase totalidade de tudo o que lemos por aí. 

Segundo, em defesa da manutenção da apresentação bem fornida em alentadas tabelas, que o autor especula no comentário parece estar afugentando os leitores, gostaria de lembrar a todos a chatice que é a leitura d'O Capital de Marx no que se refere àquela miríade de dados e cálculos para destacar que a boa análise materialista não é mera síntese pela reflexão mas uma abstração que toma as dimensões da concretude a contrapelo como base material da leitura imanente das suas contradições. A alternativa a isso seria... apresentar sim a centena e tanta de tabelas que acabaram não sendo publicadas, ou seja, não tem jeito...

Terceiro, não é por nada não, mas tem muita dissertação de mestrado que não vale 1/10 do que temos aqui, bastaria um capítulo explicitando, só como exemplo e retomando notas de um dos comentários ao texto três, alguns conceitos como o Controle Geral da Produção, gestores x proprietários etc... 

Quarto, fica no leitor a certeza de que o debate que temos por aí está todinho pautado pela hegemonia da tese do lulismo de resultados como o mal-menor.

Quinto: lembrado que fomos de estarmos a tratar da franja visível e legal das doações e que as verbas destinadas à candidatura majoritária federal também absorvem desvios de verbas originalmente destinadas a outras candidaturas, ainda assim seria interessante se alguém pegasse a deixa, e se propusesse a percorrer o bolo registrado no TSE para as eleições de 2002: talvez apenas se confirme a preferência dos setores que dependam diretamente de políticas públicas de financiamento e contratos, mas talvez surjam algumas surpresas. 

Por fim, no principal, a série mostra que o "bolo do capital" não é tão imparcial assim nos seus posicionamentos, embates e preferências, e vejo alguns desdobramentos possíveis dessa alentada pesquisa:

(1) temos o desafio de ficarmos atento às dimensões que a pesquisa nos ensina a reter para não ficarmos reféns da retórica do mal-menor que prende a esquerda no colo de políticas públicas que anulem uma práxis e construção de hegemonias anti-sistêmica e anticapitalista. Basta ver meus últimos textos nesse blog mesmo para que se entreveja o tamanho dos equívocos que a leitura da série faz vir à tona.

(2) coloca-se novo desafio, o de acompanharmos nas próximas eleições também as doações às candidaturas do legislativo, em especial, aos defensores assumidos da transferência a capitais estrangeiros da infra-estrutura produtiva, para então um outro patamar aparecer, somados os recortes à presidência  ao legislativo, que é 

(3) o da (re?)colonização do espaço econômico nacional nos termos de uma divisão internacional do trabalho que reproduza uma interesses geopolíticos plantados pelo Departamento de Estado Norte-Americano versus capitais chineses, a dimensão dos Brics e o subimperialismo brasileiro no espaço econômico latino-americano.

(4) e assim evitarmos uma mera apologia de "interesses nacionais" versus "interesses estrangeiros", e sim construirmos uma rede de coletivos de esquerda radical que não se restrinjam a reproduzir manuais de formação política e sim vislumbrem pautas e saberes em suas lutas regionais que possam se contrapor ao movimento cego de belas-almas de boa-vontade pautadas pela religião regida por rituais mágicos em nome do deus-dinheiro, seus porta-vozes, o "mercado" e suas epístolas neodesenvolvimentistas de meia pataca --- a comungarem todos sabe-se lá que hóstia seja servida [com gás pimenta a temperar o que se passa por Estado de Direito Realmente Existente, seja nas remoções forçadas, seja na transferência de fundos públicos, seja nas políticas estatais de redesenho urbano ou de circulação de mercadorias, a lista não acaba mais] sempre em nome da governabilidade a travestir a mesma maximização de lucros e o mata-esfola de sempre que acomete o mundo do trabalho [que vai muito bem, obrigado, a brincar com suas miçangas e espelhos pendurados no zapzap/facebook/baladas/drogadição lícita ou ilícita, amém], pouco importa quem saia ganhando a queda de braço entre seus players ou o grupos de pastores colocados à frente do altar em Brasília.

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Comentários

Douglas Barros disse…
Tedeia esse artigo do passa palavra foi uma das melhores análises que vi sobre os pêndulos da gestão petista