sexo sem poder é sexo sob poderes


e então acho que o "desaprender" agora é fato, e as palavras servem agora a qualquer uso, à revelia do que elas signifiquem, apenas para fazer valer o que o enunciador ou seu leitor bem entenderem. O nome disso: barbárie. Exemplo, "heterossexual" em "Por que homens heterossexuais transam uns com os outros?" (clique aqui para ler o texto), em que homens se enrabam em suas comunidades fechadas, tá tudo lindo, seguem a vida viris achando que ao nomearem seu ato como bem entendem resolveria tudo – e o que não estaria resolvido mesmo?, o texto é bom ao problematizar isso com dados e por organizar um debate esclarecido e militante. Mas não resolve muito a ideia que propõe "alargar" [ah, esses ressaibos habermasiantes, nunca me enganaram] o que se toma por heterossexualidade, quando o "se tocar" é algo comum mas não assumido como "sexo" exigiria então uma definição menos irreal ou restrita de hetero... Bem, francamente... Culturalismo em excesso dá nisso: encontra práticas sexuais homoafetivas rotineiras mas mascaradas como mera manifestação assexuada de ritos e práticas, as assume como o que dizem ser quando o recorte proposto retira o fundo falso em que se assentam alargando o sentido sexual do que se faz, mas passa ao largo do que de fato importa, de algo que não consegue ser apanhado com base em mera descrição, mesmo que com sabor de desvelamento, do conjunto de rituais fetichizados, enrustidos ou o que seja socialmente desdenhados. O que a culturalização de tais práticas ignora? Que o sexo se soma a práticas de dominação e humilhação. Que o modo como o sexo hetero é "exposto" é parte dum grande jogo social de poder sobre a mulher, o gay e quem quer que lhe cruze o caminho.
Que o tempo e o espaço do sexo é o dos jogos de poder que ele mascara. Ocorre que tudo isso desaparece quando a homo e a heteroafetividade são sufocadas sob rios de palavras que recusam a assumir o básico: que afetos existem e são postos a serviço do conjunto das relações (sociais, políticas, econômicas, religiosas) normalizadas como "aceitas" entre os que praticam ou são atravessados por tais afetos e ritos. Que a ostentação ou mascaramento das práticas sexualizadas é parte dum grande jogo de dissimulações de hierarquias, jogo que inclui a história da filosofia, das religiões ou das relações de parentesco. Já que é para culturalizar: a queda de braço socialmente instaurada por ritos e mitos instaura hierarquias entre quem e como manda e quem e como obedece. Não é a heterossexualidade que desaparece. É a sexualidade que dissimula posse de corpos, ritos de passagem ou qualquer coisa que implique soberania sobre corpos para além da pasteurizada encenação asséptica de carícias ou discursos, encenação que se passa como "norma neutra", para que se normalizem exceções (um oxímoro interessante e que dá muito pano pra manga) a serem negociadas. Quando carícias ou discursos homoafetivos se recusam a se ver como tais, o problema não é o campo estrito e explícito do campo de significações do que se passa publicamente como hetero. O nó está no campo largo e obscuro do exercício, ou não, da velha liberdade de querer fazer ou deixar de fazer algo sem ser impedido ou coagido a algo contrário. Uma coisa é certa: segue a girar em falso quem, embora faça vistas grossas aos condicionantes estruturais que moldam discursos e práticas sexuais, mesmo reconhecendo esse passo em falso, ache ser possível tratar do fenômeno isolando-o. E assim se repete o modo fragmentado de produção de saberes, ao se supor possível tratar de afetos e sexos e ignorar sua captura por dispositivos de poder e vigilância, para falar como aquele outro careca que desvelou a ingenuidade de supor separadamente sexo e poder, embora estivesse apenas reinventando e empobrecendo, posto que dessubjetivada, a roda que a psicanálise já tinha posto em circulação mais de meio século antes... Ainda assim, é recomendável a leitura do artigo, não só por trazer dados e recortes com os quais temos de lidar sem cuja concretude estaríamos fadados a ideias abstratas sobre algo tão palpável e cotidiano, como também porque o texto reúne a retórica esclarecida dominante com a qual temos de lidar quando queremos algo mais que curiosidade diletante ao nos ocuparmos dos nexos discursivos que tecem, validam e enunciam o que se passa por "nossos tempos", para lembrar um velho suábio tão citado mas pouco compreendido.

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