a derrocada de certa esquerda, o avanço fundamentalista cristão e duas pistas para uma política provisória

deixa eu ver se entendi


I. a derrocada de certa esquerda

A disfuncionalidade da, podemos dizer com todas as letras, ex-ocupante da cadeira presidencial, somada à sua letargia e falta de faro históricos, são as credenciais de uma "esquerda que não ousa dizer seu nome" legadas à história.

Eis aí o teto de uma sensibilidade política de centro acadêmico pela qual o radicalismo forjado nas lutas entre facções formadas por anões políticos de extrema-esquerda lá nos anos 60/70 formam hordas que, de Aloysio Nunes a Serra, de Pallocci a Dilma, exigem passarmos a limpo o que vem a ser, afinal, o extremismo juvenil em seus achaques esquerdistas infantis, e suas variações de coquinho, tattoos, alargadores, sainhas, todos narcisicamente satisfeitos em seu radicalismo de fancaria de classe média e baixa urbanas a pacificarem suas consciências com um habitus de esquerda enquanto esperam vaga na gerência do botim.

Depois, quando calham de conquistar a gerência, confrontados com exigências de embates enfim materialmente determinados, refastelam-se na cama macia da governabilidade, "estamos disputando posições", guincham sorridentes.

Quando se dão conta de que a cama macia não passava de tapa-olhos ou viseira equina, passam décadas em autocrítica nas quais nem seus herdeiros políticos estarão interessados, mas isso pouco importa.

O que importa é: como fazer frente à legião de demônios que se sente à vontade para determinar o que seja a política de agora em diante?

Como lidar com a lavagem cerebral da midiotização, com o desmanche da educação pública? Com sua captura por interesses diretamente vinculados ao que se passar por "mercado" na periferia do capitalismo? Com sua destruição pelo fundamentalismo cristão, e não apenas o pentecostal?

II. o avanço fundamentalista cristão

Alagoas acaba de dar o pontapé inicial no desmanche do resto do que se passa por educação.

Lá, o professor será condenado a tomar cicuta por corromper o espírito da juventude? 

Quase isso: uma lei pune criminalmente o professor que cobrar ou apenas propor ao aluno qualquer leitura/pauta/ideia secularista que o "ofenda", ou "ofenda" o pai responsável, vale dizer, seus valores fundamentalistas cristão ou de extrema direita, travestidos sabemos muito bem do quê, de neutralidade axiológica em "respeito às tradições da família cristã", eufemismo que não os diferencia muito de um Talibã qualquer. 

Esse lixo foi aprovado ontem em Alagoas, pro ensino estadual.

Em Brasília há alguns projetos do tipo tramitando. 

E em vários lugares do país.

"Bem-vindo ao neomedievo high tech", várias vezes ditos por mim, nunca foi mera alegoria, mas sim pálido anúncio, indeterminado materialmente, mas sempre a cutucar a imaginação para o que se seguiria à abertura dos portões ao retrocesso de um ambiente cultural pré-moderno, em reação à pauta anunciada pelos fundamentalistas cristãos em prosa e verso. 

Lembro que, já em julho de 2009, a situação já era alarmante, quando publiquei num texto do blog [link] algo como um chamamento aos ateus para as ameaças que estavam se impondo lá à época, algo que só cresceu desde então, e começaram assim, devagarzinho, impondo a obrigatoriedade de se ler trechos da blíbia antes de começar a sessão do legislativo local.  

E desde então, só derrotas...

O pesadelo já começou. Sim, eu sei que você vai dizer que é fruto da minha imaginação.

Mas se a gente não se articular, cada um em seu âmbito e rápido, não tardam a surgir linchamento por blasfêmia, como em qualquer território fundamentalista que se preze...

A desfaçatez clerical [em tempos em que até o regicídio volta à pauta, nada como dar o nome certo aos bois] é tamanha, que o retorno ao medievo é visto como algo a ser imposto e fim de papo...

E olha, cá entre nós, nem em 50 anos a gente consegue reverter esse estrago... Porque, desde os anos 70, a militância pentecostal fundamentalista nada de braçada, e deitou raízes profundas no imaginário desértico e colonizado das multidões, prestes a despertarem em fúria contra o que quer que seja que se mexa em direção ao futuro que lhes cruze o caminho...

Falta só um ingrediente: a miséria econômica.

E essa os golpistas tratarão de garantir no ciclo que se inicia.

A serpente já saiu do ovo (remissão ao excelente O ovo da serpente, de Bergman, recomendo).

Lembrando que nós somos os criminalizados nessa história.

E eles, sempre, no máximo "barrados". 

Não é preciso saber futebol para saber o que acontece com time que não chuta a gol e apenas fica na retranca...


III. duas pistas para uma política provisória

Para dizer que não falei das flores, um jovem mestrando em Gramsci daqui da UnB me disse:

Tem mesmo muito "leite com pera na esquerda"

Mas parece que o maior problema é falta de rumo, de estratégias claras de luta, enfim, falta a resposta à velha pergunta do Lenin.

Acredito que, em grande medida, a dificuldade de responder "o que fazer?" seja consequência da dissolução do sujeito revolucionário, da falta de uma classe proletária. 

Como você já vem alertando a muito tempo: as categorias teóricas já não dão conta do real. 

Ainda assim eu faria duas apostas: 

1) O trabalhador da periferia urbana do Harvey como potencial sujeito revolucionário; 

2) A luta cultural, no sentido gramsciano, como forma de fazer frente à extrema direita - que, aliás, parece ter entendido muito bem que esse é o caminho e decidiu apostar boa parte das fichas na midiotização e no desmanche da educação.

Certamente a maioria da população é composta por pessoas que sofrem algum tipo de exploração.

Essa exploração vai disparar no governo ilegítimo (redução de direitos).

Cabe à esquerda formular e veicular um discurso capaz de fazer com que estas pessoas entendam a dinâmica da política e quem os explora. 

Sob pena de a "nova classe média", depois de quebrar por conta das políticas do governo golpista, cair no colo dos fascistas.

Subscrevo, acrescentando:

1) não tem jeito, ou apostamos nesse precariato, ou façamos como os eremitas dos primeiros séculos da cristandade e viremos as costas à pólis, equívoco já testado nas tais comunidades alternativas (Kibutz, a mais interessante delas, deu no que deu)

2) resta a via cultural, em sentido gramsciano mesmo, como consolo enquanto não sabemos o que fazer, lembrando que ninguém tá nem aí para o que aquele punhado de interessados lá das quebradas façam ou toquem com fibra e sacrifício de seus interesses pessoais imediatos...


Bom dia, aproveite enquanto há amanheceres, e, lembrando que nossas crises pessoais são sim uma resposta informe a algo tenso que desaba sobre nós vindo por todos os lados, courage!
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