corvos e ratos, prefácio a uma guerra escamoteada

Duvido que aprenda... desde 89 PT senta-se com dels e o diabo. Atropelar e expulsar tendências à esquerda e, desde começo dos 90, acabar com democracia pela base, deu nisso.

Quando é que será “oportuno” passar a limpo essa história? Por ora, seguem-se dois tipos de observações: o porquê se deve barrar o golpe, e o porquê se pode dizer estarmos já derrotados pouco importa quem ganhe, o pior: ambas as leituras são verdadeiras e não contraditórias entre si.

Como escolher? O argumento da aposta pascaliana mostra que é melhor a gente se coçar contra o golpe: nada perdemos mais do que já perdemos quando o golpe é barrado, tudo o que nos resta perderemos se ele passar.
***
Um hegeliano atento sabe bem ser esse o limite pascaliano típico, a mera oposição dos contrários sem superação.

Um petista ou governista vai parar por aqui e recitar o mantra do “vocês e suas Jornadas de Junho-14 é que acordaram os ratos".

Um coxinha, então, passará longe dessas páginas, está se lixando para o que eu pense deles e não precisa de meus ataques ao PT para saber o que defecar em seus teclados e passeatas uniformizadas com camisas, piratas na maioria, da selenike.

Vamos supor que ainda reste um leitor interessado, e nem será minha mãe, porque essa já morreu faz tempo e nem dava muita importância assim ao que eu escrevesse.
***
Agora a meta é: barrar o golpe dos corvos entreguistas e fascistas que resolveram cuspir na mão de quem os alimentou tão bem esses anos todos, e é esse o problema da “governabilidade” e suas alianças com o baixo-escalão da lata de lixo da história.

A meta agora é: empurrar de volta aos esgotos os que criminalizam quem cospe nos que elogiam torturador de crianças de até cinco anos e que enfiava ratos em vagina de grávida.

A meta é trucidar politicamente, nas ruas, na vida inteira quem aplaude torturadores.


O fato é: os gorilas e os fundamentalistas cristão e de mercado se nutriram essas décadas todas nos esgotos da “governabilidade”, eufemismo genérico que mascara o que de fato é, “conciliação de classes”, como se isso fosse possível, e agora os ratos estão à vontade e fortes o bastante para invadirem a aldeia e morderem o que encontram pela frente.

Isso e muito mais.

É inoportuno repassar essa história a limpo por ora, mas sempre é tarde e sempre é cedo demais.

Por ora, é evitar a batata do capeta servida às custas do pouco que o regime de conciliação desenhado pelo lulismo de resultados submetido ao mantra da "governabilidade" conseguiu avançar esses anos todos.
***
Intermezzo com carinha de nota de rodapé:

1) Não existe jogo em que todos ganham, uma fantasia que nos custa os doze anos que tivemos de quebra na escrita centenária do eternamente-mesmo, e que impõe um recuo de décadas na organização das lutas sociais e na mobilização das bases

2) E olha que vários de nossos vizinhos latino-americanos lidaram com seus ratos mas não perderam, e por quê? Porque politizaram seus embates logo de saída: não ficaram de mimimi entre os seus a quatro paredes. Se por um lado também eles rifaram seus apoios e pautas à esquerda, por outro, não esperaram a maionese desandar, e partiram para o contra-ataque contra suas direitas históricas. Isso vale para os Kirchner, Morales, Chávez.

3) E o Lugo? Ele se inspirava no Lula, e foi posto a correr no golpe tecido pelos ratos de lá e que antecedeu o nosso em método e anos. Mesmo assim o governismo daqui seguiu sua fantasia de winner-winner, todos-ganham, e rifou nossa esquerda enquanto fez vistas grossas à sua direita.

4) Estamos vendo o que estamos ganhando agora: torturador-símbolo dos gorilas de 64 elogiado em rede nacional nas tribunas do parlamento, CLT rasgada em questão de meses ao liberarem geral a farra das terceirizações, o uso ilimitado da Internet fixa está indo pro ralo, e até acharam uma brecha na Lei Áurea, já que o combate ao trabalho escravo jamais puniu os ínclitos parlamentares e tantos outros respeitáveis senhores de engenho às dezenas flagrados com escravos em suas propriedades.

***
"Segue o jogo" deixa de ser um mantra.

Importa muito quem ganhará a batalha contra o golpe?

Sim e não.

Não importa muito, porque "jogo democrático" já voltou algumas casinhas.

Não importa muito, pois já mudaram muitas de suas regras.

Não importa muito, pois basta lembrar as remoções forçadas para as obras da Copa e Olimpíadas, o impune genocídio por décadas nas quebradas dos negros e pobres, os 50% de tudo que se arrecada repassados como juros de títulos da dívida pública ao mercado financeiro.

Não importa muito, pois nenhuma das pautas históricas da esquerda, PT aí incluído, foi sequer colocada em votação.

Não importa muito, porque a focalização de políticas públicas no combate à miséria atenuou a miséria, legal, mas não mudou uma linha no padrão de acumulação de riqueza e concentração de renda, que seguem muito bem, obrigado. 

Não importa muito, porque de quebra o governismo ainda fez passar uma lei-antiterrorismo que será usada contra os que forem combater a República dos Demônios bancada pelas Fiesps da vida tecida à luz do dia.

Não importa muito, pois a lista de concessões à governabilidade é maior que a largura da banda da internet fixa que as telefônicas estão impondo.

***
E sim. Importa e muito.

Sim, importa muito o golpe sim, porque importa e muito quem ganhe.

Sim, importa muito o golpe sim, porque se os ratos ganharem, o jogo voltará muitas casinhas, se é que sobrará alguma para recomeçarmos do zero.

Sim, importa muito o golpe sim, e não faltam prévias do inferno que se anuncia.

Sim, importa muito o golpe sim, porque, nos últimos onze anos, consolidou-se uma aliança do Judiciário e polícias com o grupo político que resolveu roubar a faixa presidencial no grito fanfarrão das farsas que encenam em rede nacional pela Rede Gloebbels esses anos todos.

Sim, importa muito o golpe sim, porque Judiciário e polícias pagam uma “pepeta gotosa e virando os olhinhos” para certa facção bicuda e comparsas enquanto unilateraliza suas investigações em regime de exceção contra o petismo, para ficar só num dos desmanches em curso do tal Estado de Direito. Imagina por quantas décadas os corvos ficarão impunes com esse judiciário e polícias azeitados e castrados por essa alcatéia de cunhas, pastores, fazendeiros, fascistas e tiriricas.

Sim, importa muito o golpe sim, porque um Poder Legislativo formado por centenas de palhaços-tiriricas, gorilas-bolsonaros e pastores-felicianos país afora darão o arremedo jurídico ao pior dos mundos possíveis que se anuncia para breve.

Por ora, é isso que devemos evitar.

Se eles ganham, muito sangue vai correr, e será da cor vermelha e será o nosso sangue.

Sim, importa muito o golpe sim, e a aposta pascaliana mostra que é melhor jogarmos as fichas no grupo que, caso estejamos errados ao apoiá-lo, nada muda, a bandinha segue sua marcha e a gente nas ruas sob as regras do jogo a enfrentá-los.

Sim, importa muito o golpe sim, embora haja quem ache que rifar o PT no Planalto seja alguma espécie de luta que não nos interessa, e que seja possível uma luta de esquerda contra, sem ou apesar do PT.

Sim, e o erro histórico de dizer “não, pouco importa” tem consequências que nos atolarão na lama da mexicanização berlusconizada da política de modo mais que irreversível: implacável é o termo.

Sim, porque a política é a arte do possível, e ser um materialista é fazer análise de conjuntura para além de princípios de ação que, nessas bifurcações históricas, se reduzem a posicionamentos dogmáticos infantilizados.

conclusão improvisada de hoje

As vistas grossas a tudo isso vale para muita gente tecida nas lutas e que aposta num aumento de suas bases à espera de uma migração dos patos com o fim da estação do lulismo de resultados.

A todos deixo uma pergunta: por que vocês acham que os donos do rifle tomam como símbolo do golpe o pato amarelo [de direitos autorais não pagos, aliás] representado com cruz nos olhos? Quem é que, afinal, pagará o pato? De quem vocês acham que esses impostores cobrarão a fatura da farra de cinco séculos em que se refastelam, e cujo osso não querem largar?

Não, não existe jogo em que todos ganhem. 

Resta saber de que lado você quer ficar: de quem pagará o pato ou de quem atira nele? Porque a temporada de caça já está aberta. 

E nem me refiro às reuniões semanais que o sapo-boi [piada pronta ele ser homônimo do inventor da dialética lá na Grécia clássica] vem fazendo a articular golpe com Jobim, THC, Serra et caterva. 

Enquanto isso, não custa lembrar: tio Obama segue caladinho a esperar o momento em que a pax americana volte a se impor sem qualquer resistência no seu quintal em fase de recolonização conduzida por seus esbirros locais a passos largos.

Às ruas! Não sejamos um bando infantilizado de patos amarelões. 

E se é guerra que querem, guerra terão. 


Comentários