Golpe não se discute, se combate, mas na teoria a prática é outra

DEBATE COM [link]

Marilena Chauí
Paul Singer
Nabil Bonduki
Aton Fon Filho
Carlos Neder
Mediação: Wagner Romão (Unicamp)

Casa da Cidade – Rua Rodésia, 398
Domingo, 15/5, às 19h00

A tarefa de construção de uma democracia no Brasil revelou-se insuficiente diante da articulação das elites conservadoras, através de uma farsa jurídica e parlamentar que interrompeu o exercício de uma presidenta legitimamente eleita.
É fundamental reunir a esquerda para orientar a crítica ao regime ilegítimo que se estabeleceu com Temer e, ao mesmo tempo, fortalecer propostas de organização e prática rejuvenescidas, que não incorram nas deformações políticas que enfraqueceram o campo do qual fizemos parte nos 13 anos a frente do Governo Federal.
Essa crítica não deve de forma alguma negar os avanços sociais que ampliaram as perspectivas democráticas do povo brasileiro. Deve, sim, abrir espaço para a superação programática de nossa agenda política, para conquistar uma sociedade mais justa, racional no uso de seus recursos, mais diversa e respeitosa em relação às formas alternativas e inovadoras de organização política.
Tão evidente quanto o golpe que avança cada vez mais, são as batalhas para vencer contra o oligopólio, o patriarcado, a mídia tendenciosa e o fascismo que se consorciaram contra as classes trabalhadoras.

Na prática, ainda falta a última peça do golpe das ratazanas, que é encarcerar Lula. 
E por quê? Porque até presidente dum banco ou algo análogo, dias antes do golpe, apontou como "efeito colateral" o risco de esquerda se eleger em 2018, e, dada a eficiência dos criminosos gestores e líderes do Golpe-2016, é claro que não deixarão essa ponta solta. 
A meta do golpe, e Darcy mostra isso de modo cristalino nos 464 anos traçados em O povo Brasileiro, sabemos qual é:


Há ainda um elemento sempre fundamental: as raízes autoritárias de uma elite que nunca foi, nem quer, e no que depender dela, nem será julgada por seus crimes, lícitos ou golpistas. 
Sua impunidade lhe dá a certeza e a força para seguirem adiante na tentativa de fundar algo muito maior que meros 50 anos do legado da Ditadura-64...
Explico-me: se é a própria trégua social instaurada com a Nova República que vemos naufragar, então: não saímos então do golpe-64, já que a fantasia de seu autocancelamento assenta-se na miragem que vemos desfazer num piparote só, a do pacto que garante um espaço público em que o capital e o trabalho negociam conforme as regras do jogo, regras em nome das quais, aliás, os esbirros da ditadura se safaram de serem julgados, em procedimento questionado por todas as Cortes internacionais..
Agora o capital acaba de falar que não brinca mais e fim.
Nesses termos, voltar no tempo como se nada tivesse acontecido com uma pauta "vamos defender a democracia", vamos salvar o estado de direito desses ataques etc., é sim fazer de conta que nada disso aconteceu.
Para mobilizar as ruas, vá lá afinal:


Mas na teoria, para que um dia a prática seja outra. 
Ou seja, em nossas discussões e leituras e estudos, insistir em voltarmos às opções tomadas lá atrás, "vamos defender a democracia, o Estado de Direito" etc.,  é errar duas vezes, com o agravante de que agora serve de paliativo a reforçar o acerto autoatribuído pelos dois lados que tomaram essa via lá atrás, tanto o que ganhou dizendo que perdeu e agora retorna faca no dente, quanto o que perdeu lá dizendo que ganhou, lutou, resistiu, fez alguma coisinha nos últimos 14 anos, e perde agora de novo com o rabinho no meio das pernas como cão sem dono na chuva...

Como evitar o inócuo discurso que insiste na manutenção e ampliação do patamar mínimo de direitos?
Como evitar a disjuntiva, por ora consenso entre "nós-os derrotados", que é ou não fazemos nada ou voltamos três casas como se fosse um jogo de tabuleiro, e retomemos os lugares políticos, intelectuais e acadêmicos que geraram o que prestou da política nacional nos anos 70-80?
Como evitar que no máximo viabilizemos uma candidatura às próximas presidenciais (2018? 2017? 2040?) que se restrinja ao famoso "mais do mesmo" travestido de "vamos retomar e ampliar a construção dos direitos sociais"? 
Do ponto de vista teórico essa disjuntiva ou sinuca de bico é mesmo o fim da política: 
(1) seja fim como inexistência da política enquanto dissenso visando a construção de uma alternativa, e aceitar esse bloqueio é bater a cara na parede ou a cabeça no teto.
(2) seja seu fim porque ela se resumiria à arte do possível, e então giraremos em círculos, já que a última volta do parafuso, o da "governabilidade" (1986-2016), espanou e dessa toca podemos até fantasiar que saiam coelhinhos fofos, mas, na real, o que vemos sair são ratazanas prá lá de saradas e trincadas!
Ao invés de criticarmos o PT como responsável pela maionese desandada, a crítica exige algo muito mais radical, que é a crítica à adesão às regras do jogo democrático inventadas e impostas segundo relações de conveniência de quem pode derrubar o tabuleiro a qualquer momento.
À critica  da defesa dos patamares formais da democracia.
À crítica ao abandono das formas de organização e luta antissistêmicas, do abandono das formas políticas de participação direta, intrapartidária inclusive
À crítica às formas de se pensar ou fazer política que, ao invés de construir um espaço popular de enfrentamentos, apenas se restringe ao posto, ao permitido, ao consentido pelo Estado, pelas "instituições [depois elas dão o bote, e aí ficamos com essa cara de bunda de quem tomou um "drible da vaca" do pato amarelo, não gostou mas tampouco sabe o que fazer], se restringe ao posto, ao permitido e consentido pelo mercado [idem, ibidem], ou, last but not least, pela religião ou afetações transcendentais análogas...
Ademais, ficar só na crítica ao lulismo de resultados é aceitar como "fundo neutro" as regras do jogo que colocaram a estratégia lulista de conciliação mediante o jogo em que todos ganhariam.
Como evitar a afirmação de um jogo cuja negação é o desmanche clássico e ataques ao andar de baixo que agora vem com tudo [sem ignorar o quanto de desmanche também o lulismo implicava, por exemplo, com a focalização de políticas públicas, cuja não-universalização é o que permite meros decretos a cancelá-las numa penada só]?
Como superar o bloqueio imposto por uma lógica política que desenha um conjunto de leis jamais questionadas, a negarem qualquer possibilidade de sua refundação [uma delas, aliás, usada para apear do poder a presidenta, malgrado o fato de várias dezenas de outros líderes do Executivo, aí incluídos TODOS os tucanos em todas as instâncias aí incluídos, também violarem o tal teto de gastos com pedaladas fiscais que contornam esse interdito]?
Como superar o veto imposto por essas leis à alternância real de poder, para citar o Fiori [filho daquele cassado pela Ditadura-64 da UnB antes que pudesse implantar o Instituto de Filosofia e Teologia], que, lá nos anos 90, analisava o emparedamento da gestão do Estado pelas reformas cardosistas que o engessaram e inviabilizarem qualquer política econômica alternativa aos dogmas impostos, um desses dogmas levando à transferência maciça de cerca de 50% de tudo o que se arrecada para a remuneração dolce vita dos especuladores e classe média que deixa "dinheiro no banco para render"?
Como está chegando a hora da macarronada com frango, fechando o texto: preparemo-nos para dias difíceis, não só na conjuntura, mas também na vida privada, pois a desmonetização do andar de baixo é a primeira medida para quebrar a resistência tanto a curto quanto a longo prazo. Engraçado como os golpistas acham ser possível empurrar os custos da crise para quem está de um dos lados lado do balcão, achando que com isso alguém mais que não os bilionários de sempre (que por isso mesmo ficam cada vez mais milionários) se safarão numa boa. Por isso, como no gif do post anterior, o da flecha-bumerangue [link], tudo é possível. Alvíssaras!
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