momentos weberianos e uma notinha sobre a violenta "união" vendida ao matável andar de baixo


tipo ideal de hoje: jornalista-escarradeira

o que do fundo da fossa caga pela 
boca sorrindo a longa trolha impalada 
no rabo por patrão tão marinho, irmãos,

pessoal se supera na sofreguidão lambe-bagos da 
diretoria nessa feroz disputa pela vaga de 
arnaldo jabosta nos telejornais da imunda.



nota 

Resumo: O golpista fala em "Unir o Brasil sem rancor nem ódio", vá lá, mas em torno de que projeto mesmo? O que é essa desfaçatez toda dos que surfam no ódio para reviver o estado de exceção que se auto-cancelou e não foi julgado? Em nome do que eles querem que fiquemos quieto, sem chiar nem piar, diante do golpe? Se fazem isso com a presidenta e ainda mandam-na calar a boca, o que não fazem com os nós, os amarildos?


A retórica do ódio foi plantinha meio besta semeada pelas páginas do jornalismo de esgoto praticado pela infame Veja, em caixas de comentários na Net, e um arnaldo jabosta mais uns dez idiotas na midia televisiva e radiofônica, mais um astrólogo a sofismar fraseologices filosofantes lá na primeira década do século.

Essa retórica mostra-se com novo vigor ao assumir de vez o "ódio ao populacho" –  ao pobre, ao nordestino, às políticas  focalizadas não por não serem universais mas apenas por existirem – quando o tea party aterrissou por aqui na presidencial de 2010 pelas mãos do maior partido local de extrema-direita – I'm so sorry, lamento informar estar quebrado teu termômetro político caso mensure de outro modo a facção política que nomeia um Coronel Telhada para Comissão de Direitos Humanos, milico com dezenas de acusações de homicídio nas costas, ou que massacra à larga toda e qualquer mobilização de aluno, professor, sem-terra, sem-teto, com destaque aos requintes de crueldade empregados.

Esse ódio tornou-se padrão de medida e senso comum que culmina na declaração de hoje do ínclito Gilmar Dantas de que podem apelar ao papa e diabo que o processe segue. 

E a propaganda golpista tem o descaramento de explicitar o ódio que de que se nutre, ao negá-lo:




"Unir o Brasil", vá lá, em torno de que projeto mesmo?

Quando a facção tucana não aceitou a nova derrota em 2014, ela resolveu partir para a jugular não só para acabar com o protagonismo regional da agora ex-potência acendente no tabuleiro geopolítico latino-americano, mas também para tirar todos os esqueletos do armário ao mesmo tempo, um deles a Ditadura de 1964 ["ditabranda", na fórmula de seu porta-voz midiático paulistano com sede em conhecida região central do baixo meritrício].

A desfaçatez toda deve-se porque os esbirros da ditadura nunca viram a barra dos tribunais, tampouco pagou o que deve a corja civil que cultivou essa via, franja de golpistas entreguistas que agora volta com tudo.

Aliás, vou refazer o parágrafo acima.

Como os tribunais mostraram nessas décadas todas a quais interesses sempre serviram ao se recusarem passar a limpo e julgarem os crimes da ditadura, os civis golpistas entreguistas e patrimonialistas voltam com tudo, acalentados pela certeza da impunidade a coroar de êxito o ciclo que foi parcialmente interrompido por 30 anos dourados em que o estado de exceção se auto-cancelou, e volta agora, quando e como bem quis [1986-2016, se é que havia alguma coisa dourada na governabilidade enlameada pela chantagem do "é dando que se recebe", ciclo iniciado da Nova república e encerrado com o golpe, cf., p.ex, aqui].





Não é que os golpistas sejam virtuosos homens públicos defensores do Estado de Direito convertidos e domesticados pelos EUA quando esses voltam a colocar as garras e a Quarta Frota de volta no nosso pescoço dias após o anúncio da descoberta do Pré-sal, e então transforma tais virtuosos em capachos representantes locais dos interesses americanos, assim os convertendo feito zumbis em golpistas a defenderem a volta da ditadura, não foi isso.

Antes, o buraco é mais embaixo. A conjuntura permite uma releitura retrospectiva de ordem estrutural, e veremos os golpistas e oportunistas todos a retomarem a lógica da exceção do mesmo lugar onde sempre estiveram, após as melindradas décadas sob o afluxo das lutas sociais de classe e emancipatórias dos anos 70-80, que resultou na trégua da governabilidade de meia pataca que vivêramos, trégua coroada  pela governabilidade lulista varrida da história "na ignomínia" não por seus defeitos, mas por seus méritos ["que seja dito em agradecimento e louvor à esquerda que está sendo escorraçada agora na ignomínia. Alguém lembrou com justeza que o ônus será coletivo. Iremos todos pedalar no inferno por uma geração, na melhor das hipóteses." link.

Meia pataca a trégua porque, entre outras, as PMs seguiram tocando a exceção e o terror em moto continuo e sem nenhum controle sobre elas como se não houvesse amanhã, apenas o ontem dos gorilas do passado eternamente presentes, bolsonazi que o diga.

Não bastasse isso, com o novo sinistro da Justiça que se anuncia, firma-se em nível federal a aliança paulista entre o PCC e os órgãos de segurança, a impor ao espaço nacional uma nova nova fase do horror, que é a mexicanização da política de segurança: por um lado, repressão a movimentos e lutas políticas [o dito sinistro acusa de "guerrilha" as manifestações no centro de SP de ontem], por outro, bandidagem comendo solta dentro e fora do Estado, e na casinha do cachorro, os tribunais deliberando sobre pipoca no cinema ou manteiga roubada no mercadinho da esquina.

Foi sim uma trégua de meia pataca, e cito só mais um lado desse cubo de horrores mil lados, porque a oligarquia midiática apenas reforçou seu poder domesticador sobre multidões acéfalas satisfeitos com a servidão voluntária. 

"Ó, mas é que eu assisto para ver o que é que o povo pensa", sussurram apalermadas belas-almas boca lambuzada da iguaria servida.

Eu só pergunto uma coisa: afinal... o que é esse Outro, "o povo", fora do qual a bela alma delira estar serena e seguramente instalada? 

De que povo, afinal, estamos falando?

Isso lembra a revisão histórica em "O povo Brasileiro", do Darcy Ribeiro: sempre que a elite local sente diminuir seus lucros, manda tudo à merda, chuta o pau da barraca e desce pau na negrada, na idiazada, no revoltoso, no que se mexa pela frente, com destaque... 

...para o protagonismo dos bandeirantes paulistas – cujos descendentes são esses operadores à frente do novo golpe, os herdeiros que são da corja embrutecida e especializada em roubar e pilhar o que parecesse lucrativo.



É, galera, o símbolo de São Paulo, e não à toa, são esses bandidos aí, os bandeirantes... bom seria que o horror da estátua do Borba Gato fosse apenas referente à sua dimensão estética, e não a essa servidão brutal de capachos que tudo vendem para levantar um troco enquanto reduzem aquele mesmo e resistente povo de séculos mais uma vez à resistência visando se muito mera sobrevivência, reduzidos todos que estão à condição de matáveis, e isso desde sempre, desde as primeiras décadas após o Descobrimento até a última chacina, não percamos as esperanças, as coisas vão piorar muito mais, todos sabemos.

Melhor parar por aqui essa notinha.

Ah, antes que eu esqueça: a boa notícia é que a situação está uma merda, e a má, é que a merda não vai dar pra todos não. 


Aproveito para informar: não convide-nos para nos unirmos a esses que querem impor um Brasil imaginário que não passa de mero entreposto comercial.

Nossa turma é outra, e essa galera aí são nossos inimigos, só para ficar bem claro: somos inimigos destes que querem nos eliminar, e somos muitos, e juntos seremos fortes.

Tremei, vosso pior pesadelo acaba de começar ao nos recusarmos a conivência passiva diante do mesmo velho desmanche tão comum na nossa história.

Para quem está sem saber o que dizer, recomendo de saída o já citado O povo brasileiro do Darcy, que, segundo Antonio Candido [link], é um "livro trepidante, cheio de ideias originais, que esclarece num estilo movimentado e atraente o objetivo expresso no subtítulo: 'A formação e o sentido do Brasil'", ao que acrescento: os golpistas de hoje escrevem um novo capítulo na história da formação e sentido de muitos séculos desse território varrido pelo mata-esfola pelos que mandam, a visarem a mera defesa de seus interesses particulares em negociações com o exterior das riquezas que vendem a preço de banana, e para tanto colocam de joelhos e sob grilhões nossa brava passiva e desarticulada gente que luta pelo ganha-pão e sempre sabe como e quem morre no final dessa lorota do "aí, ó senzala, nada de rancor e ódio aí, heim", ou seja: "apanhem e fiquem quietos", eis seu projeto de união.

Sabemos nomear muito bem há séculos de onde é que vem e em nome de quais negociatas se funda o ódio dos que mandam e que move a política, ódio agora reciclado, e sob a batuta do qual se reconfigurou o novo ciclo de horrores e chacina que se abre com o golpe uma vez consumado! Só nos resta resistir, afinal...



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