o que NÃO fazer


Como é fofo o discurso alarmista ante a m* jogada no ventilador para todos os lados na política nacional.

Como são agudos os gritos de desconforto ante, por exemplo, a balela que é o “escola sem partido” pautar o que será a educação nacional daqui pra frente.

Como realmente são realmente tocantes os gritos desesperados lançados aos quatro ventos em toda a “internet de esquerda” e fóruns de mídia sociais os mais diversos chocados com os bárbaros a começarem o desmonte, captura e enquadramento ideológico das bases da educação nacional sob os dogmas fundamentalistas fascistas, de mercado e cristão, SIMULTANEAMENTE, cf. isso, link

Vamos ao que interessa: o que NÃO fazer?

Aos que se conformaram na instanciação de demandas por mudanças sociais sob recorte meramente institucionalizado, o que se vê por aí é... pânico e torpor.

Contudo garantias institucionais em lugares que sequer passaram por revoluções burguesas são mero sorvete ao sol.

Na primeira discordância sentida pelo status quo ante, no primeiro aperto que passam, é golpe e fim: essa foi sempre a escrita nesses trópicos.

Logo, a surpresa ante golpe e desmanche em curso é um dos frutos de um esquecimento básico – e também um de seus capítulos – que leva ao fim da política, que é abandonar o lugar, hora, cenário de luta, organização e mobilização quando envolve práticas, interesse e coletivos formados pelos diretamente interessados, tudo substituído pelo “vamos fazer a coisa certa, vamos votar direitinho, vamos defender nossos direitos, e, caso os especialistas nos enganem, entremos com uma ação judicial”.

Deu no que deu: a fantasia de uma sociedade democrática formada por pilares institucionais que só crescem, sobem e evoluem foi atropelada por um pilarzão que “cresce para baixo”.

Eis que descobrimos atordoados que a casta dirigente optou por conhecida cambalhota a refundar o velho capítulo das reviravoltas conservadoras entre sociedades atrasadas e colônias de impérios.

Eis que nos damos conta de que essa casta nos recoloca no rodapé da história, ao transformar esse território de vez em mera franquia para negócios de lucro fácil e rápido entre cupinchas e o resto que se dane.

Eis que do dia para a noite a emergente potência regional retorna a passos largos ao estágio de não-nação porque resolveu abortar a saída de sua condição de quase-Estado.

Mais ou menos nessa linha, que sirva de curativo esse banho de água fria de dezesseis minutos que Paulo Arantes [in: "Paulo Arantes - Crise política no Brasil de 2016: história, economia e relações internacionais".] despeja nos floquinhos de esquerda assustados sem saberem o que dizer:




Pois bem.

O risco agora é esse olhar em pânico – agora com olhos marejados após trinta anos de embriaguez com o doce néctar de valores e modelos conceituais importados “da parte do mundo que deu certo” –, para não perder o chão de suas fantasias, é passar a prantear o atraso do “nosso povo”, de “nossas elites”.

O risco agora é os agora “órfãos da democracia” se tornarem os novos “desiludidos da política”, e repetirem o padrão usual das belas almas (nesse como em outros casos): virar os olhinhos para o alto enquanto emitem amadeiradas notas de desconforto político gourmet com a “concretude imunda” que nos asfixia.

O risco agora é os tão-conscientes partirem para o convívio com o Jardim das Ideias Perdidas a serem replantadas em um cotidiano apaziguado, conformado, passivo, mas cheios de dados e balanços históricos a provarem “como sempre acertamos mas o rolo compressor do mundo passou por cima”.

O risco é a resignação na torre de marfim do desespero silenciado autoimpor-se voto de silêncio malgrado rigoroso regime de padecimentos materiais que se anunciam em todas as políticas sociais.

Isso se não aderir pura e simplesmente, sob a fachada de realismo político travestido em bordões como o do gif abaixo:



O risco é a formação de nova classe de intelectuais militantes, algo como hippies da beira-mar do reino do espírito, especializados  em entortarem arames toscos de supostos preceitos modernosos e edificarem rebotalhos de bricolages que se passariam  por arte se fossem apenas os hippies de beira-mar, mas, como são intelectuais no reino animal do espírito, nos venderão ciência, política, padrões de medida, análises de conjuntura e diagnósticos estruturais com os velhos tecidos importados da metrópole, antenados que são.

O risco é termos de lidar, entre os poucos que se importarem em resistir, com regras de ação de costas para o mar da ação política tecida pelos diretamente concernidos em conexões com determinações materiais muito bem consolidadas e em bases que estão há muito tempo aí mas pouca gente atinou seu alcance.

O risco é o voluntarismo dos abnegados derrotados pela marcha dos acontecimentos mais uma vez esquecer que ou ação política tome como ponto de partida o ponto de vista, voz e corpos da massa dos esfolados de sempre e silenciados como nunca, ou então seguiremos a repetir o padrão de silenciá-los sob o discurso de quem sabe qual é a coisa certa a ser feita, para depois ficar com a brocha na mão pendurado na janela porque a escada das alianças para a governabilidade  mudou de lado do muro.

O risco é a descoberta da falta de categorias para lidar com o vazio imposto com o esfarelamento do tapete em que adormecemos todos nesses trinta anos ao som de fantasias institucionalizantes e voluntaristas.

O risco é a descoberta sob nossos pés do chão cortante da dominação sem freios nem vaselina arrastar-nos a todos a mil por hora ladeira abaixo nessa gigantesca conflagração mundial entre os dois modelos de capitalismo da leitura conservadora que o Paulo citou, e nos limitarmos a gritar, gritar, gritar “ai que medo, ai que medo, ai que medo, ai começou, ai começou, ai começou”, como se alguém de fato estivesse interessado em ouvir nossos lamentos.



A esses todos os "desiludidos da política", bem-vindos ao deserto do real, teu pior pesadelo já começou.


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