um exemplo de quando a ausência de solidariedade reproduz a forma de uma dominância encharcada de impunidade



A PM fuzilou com tiro na cabeça um moleque de dez anos [quem atirou, atirou no moleque, não na criança fofa].

A mãe do moleque assassinado: "não vai adiantar nada", enquanto aguardava liberação do corpo. 

O que impressiona é a ausência de comoção social que fertiliza contatações resignadas como a dessa família.

Que se passa quando o povo negro, pobre, das quebradas, os suspeitos de injustiçados como nunca simplesmente não se levantam em protesto a interromper – por algumas semanas que fosse – a truculenta e impune "normalidade" instaurada como curso regular das coisas?

A renúncia à reação – por mais caótica, apolítica ou cegamente violenta que pudesse ser –, eis o gargalo que ninguém entende, segue-se ao "ponto", ao acontecimento [no sentido que lhe empresta Badiou] que instaura uma escolha binária a partir do qual temos OU a resignação brasileira usual do povo das quebradas [salvo as exceções de praxe a manter a escrita da regra geral] OU subúrbios pegando fogo tocando o terror dias a fio como quando a polícia fuzila pretos ou filhos de imigrantes – pouco importa o tamanho de sua ficha corrida – entre os franceses, ingleses, alemães, ianques [idem, ibidem]...

Esse ponto é alguma coisa enraizada no sistema de formação da dominação local que se encaixou muito bem na reprodução local dos desmandos de classe, étnicos e de gênero, perpassados todos pelo mata-esfola imposto ao mundo do trabalho 

A declaração da mãe desperta na gente a certeza de presenciarmos em ato um bom exemplo de quando a ausência de solidariedade – que ela sabe que não virá e a família será alvo de represálias na calada da noite e fim, caso resolva chiar – reproduz a forma de uma dominância encharcada de impunidade.

Essa ausência de solidariedade é  "O Ponto": quando se renuncia à revolta, a escolha foi imposta pelo abandono/tibieza/desprezo de formas de solidariedade coletiva a quem foi golpeado pelo desmando.

Tal ausência nutre a opção pela renúncia  a garantir TAAAANTA impunidade aos que pisoteiam direitos... que até mesmo golpes de estado são dados a vomitarem a certeza cuspida e escarrada na nossa cara de que a regra é impunidade que as décadas de aposentadoria e reconhecimento social sempre garante aos infratores de praxe, pouco importa a envergadura de seus coturnos, togas, títulos [títulos aqui no sentido tecido na arqueologia do ódio à democracia proposta por Rancière].

O repertório da dominância dos interesses privados e relações pessoais sobre formas articuladas e impessoais de solidariedade [cf. sobretudo capítulo um de Raízes do Brasil, do Buarque de Holanda] de classe, étnicas... e lista é mais longa que o número de estrelas no céu em noite de lua nova no cerrado em época de seca.

A quem se console com a possível datenização das consciências, meramente pautada pela mídia, lamento informar: a midiatização a naturalizar a violência difusa contra segmentos sociais apenas repercute algo que é o estofo de valores presentes de modo difuso cf. Silvia Viana, aqui, dentre outros:



Viana foi peremptória no debate em mesa com Vladimir Safatle na Semana de Filosofia da UnB recentemente, a mídia só "organiza" valores cotidianos que respaldam a truculência.

Pode até lhes dar forma, mas não os inventa, insistiu Viana.

Pode até pautar as "formas consentidas" em moda na estação, mas o truque só funciona porque encontra caixa de ressonância nas consciências pessoais embrutecidas por séculos de práticas e resignações e desfaçatez com formas orgânicas de interações coletivas sempre presentificadas em ações e opções e silêncios e trabalho selvagem em "rituais de sofrimento" devidamente espetacularizados.

Deve ser isso que os sociólogos querem descrever quando falam em "sociedades autoritárias" que servem de pressuposto para certas formas de governo de coisas e pessoas centradas no extermínio puro e simples de quem ouse discordar.


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