a crítica crítica em paz consigo mesma quando suas opções culturalizantes fazem vistas grossas à ordem do econômico, político, histórico e coletivo




Já faz um tempinho que a moda entre gente muito bem intencionada que se acha de esquerda é denunciar o colonialismo cultural dos intelectuais de costas para a produção de seu povo, sua terra, sua gente. A moda, no caso, é denunciar o que não passaria de uma aclimatação local de pautas e categorias adequadas à experiência social e às demandas dos povos dos países centrais etc. e tals.

É de se elogiar a pretensão militante de negativar algo naturalizado em um registro positivado, e de fato muita e má ciência é feita para defender interesses que são de uma dada classe social, voltada para a produção de mercadorias e riquezas que atendem a poucos.

É realmente importante denunciar a captura do intelecto e categorias postos a girar em relação de gravitação por forças e interesses externas ao território [brasileiro, periférico, africano, terceiro-mundista etc.] .

Pena que as coisas não sejam assim tão simples. 

Sejamos materialistas, e vejamos como isso se dá no campo da filosofia: é triste, é chato, é de se lamentar, mas poder institucional é assim que funciona. 

Se a universidade, ou a produção científica tem seu eixo a girar por demandas, padrões de medida ou critérios internacionalizados filtrados pelo neoliberalismo, que a tudo precariza e submete ao seu controle, não é suspendendo as leituras de Habermas ou Aristóteles ou Foucault ou Hobbes ou Hegel ou lógica modal ou história da filosofia que vamos resolver o problema.

Se se trata de questionar a gravitação periferia-centro, então que se tome as questões políticas e econômicas como foco das lutas, ao invés de meramente se historicizar e culturalizar antagonismos intracientíficos.

A conquista que tal postura garante é a irrelevância científica, tecnológica e conceitual de quem entre nesse jogo [que, diga-se de passagem, é uma invenção plantada com DNA e genoma franco-americano estruturalista-descontrutivista-anahistórico, com diferentes graus de misturas e combinações, com espaço para temperos analíticos e heideggerianos em combinações de sabores tão facilmente identificáveis quanto a jaca ou o jiló servidos em pastas na torrada].

Muito interessante pleitear autonomia no campo das ideias. 

Mas se é de autonomia que se trata, faça-se a revolução comunista e se crie mecanismos e instituições que, com muita sorte, talvez em três ou cinco gerações consigam superar o estágio larval na produção de conhecimento, ciência e tecnologia.

Estamos por ora condenados à confusão mental que pleiteia ao campo conceitual, à produção intelectual, às categorias ou temas, NOTE-SE QUE APENAS NAS HUMANIDADES, uma autonomia que, vá lá que fosse, quando muito poderia, e com os muitos equívocos que lhe é própria, ser pleiteada como fosse da ordem da construção de artefatos e obras que expressem certa tradição cultural.

Enquanto a agência espacial brasileira não consegue colocar nem um clips em órbita, e nas ditas hard sciences sequer dinheiro para manter um supercomputador ligado existe, na mais hard das áreas da humanidades [as aplicadas são fofas, tem método, objeto, meta e aplicação social do saber produzido, claro se for só pró-sistêmico e visando garantir a capacidade de aeração do inferno social], na filosofia, mais precisamente e que é o recorte aqui desse texto,  ou somos [quando muito] tíbios e meros comentadores de texto, ou [a regra geral] nem isso, apenas banalizadores de chavões encharcados de intuicionismo voluntarista, hedonista e atomizado a costurar mosaicos disformes de certezas fundadas em intuições e fantasias.

O que se passa por contestação da colonização da academia é de um despudor de fazer corar a "direita" clássica, que, sólida que foi um dia, soube tecer o perfil e pressupostos de modelos de produção de verdades fundados ou na experiência comum ou na tradição ou no hábito e fim.

O que se passa hoje por esquerda crítica crítica, com suas denúncias pós-modernas da captura de nosso imaginário e capacidade de pensar pelo que é estranho ou descolado de nossa "realidade", é a composição de uma colcha de frases de efeito atravessada por uma subjetividade arrogante, narcisista, anticoletiva, dessolidarizada e hipster que, ao invés do comon sense ou da experiência, dá ainda outro passo atrás em relação a esses dois limites empiristas, e funda o que se passa por saber crítico crítico sobre as coisas, as pessoas e as instituições sociais nas particularidades de seus juízos críticos críticos graças aos quais temos diagnósticos "descoladésimos" ostensivamente de costas para as instâncias coletivas, seculares e internacionais de construção de demandas, lutas, pautas, estratégias, histórias, soluções de questões que afligem o andar de baixo da sociedade, o habitado por suas diaristas, garçons, carregadores, motoboys, atendentes e zeladores.

E nos é servido um caldo crítico crítico que pouco se lixa e sequer se incomoda com sua ignorância sobre o que é, como vive, como se reproduz, do que se alimenta essa "escória" que, não por acaso, vem a ser os que lhes dão as condições materiais de passarem horas em papers, congressos e carreiras a denunciar o colonialismo cultural ou a dependência de paradigmas conceituais de outras paragens temporais ou espaciais.

Ocorre que, ao invés de se buscar a superação das condições sociais que viabilizam a reprodução desse estado das coisas que se almeja denunciar e que de fato aflige o pessoal da cozinha,  o foco acaba sendo a circulação ensimesmada de denúncias e militâncias agerridas a compartilhar – entre outros iguais nessa desfaçatez que é sim uma desfaçatez de classe – suas certezas moleculares, rizomáticas e em rede sobranceiras e bem fornidas.

O que se passa por esquerda crítica crítica, hoje de novo, vai dormir tranquila e de barriga cheia e – ao repousar sua cabeça cheia de frases feitas sobre questões seculares, afetivas, socioeconômicas, de classe, étnicas, de gênero, não raro com os cabelinhos encharcados de teísmo antissecular e antilaico – não se poupará um resmungo antes de dormir o sono dos combatentes em paz com a consciência, o resmungo que esvazia, denuncia, duvida e combate seus moinhos de vento em nome de um ser social coletivo que, por um lado, antropologiza a "mãe-terra", e, por outro, é um "coletivo" que se materializa ali, na cama quente que é lugar mais gostoso, graças à voz do Eu-Bela-Alma ali deitado, mas que poderia estar lecionando, publicando, dando entrevistas a entrelaçar ambas essas pontas, se pondo a falar em nome de um universal fundado na natureza, e de um particular que é a mônada leibniziana do eu-que-sei.

Para não serem acusados de fazendeiros do ar, o resmungo requentado em retórica tropicalista de uma geléia geral naturaliza, na ordem do pensamento e do discurso, um destinatário que nunca se sabe muito bem quem ou o que é, num tom que agencia um lugar discursivo mais próprio aos argelinos sob a colonização francesa,a palestinos sob o estado sionista de Israel, a judeus em campos de concentração, uma postura que é sim racista, elitista, misógina e tudo o mais, já que os sujeitos sociais em nome dos quais se fala continua ali, na área de serviço tocando a bandinha enquanto suas certezas desfilam na avenida da ideias.

Restam os "seres matáveis" nas quebradas do planeta-favela. Como a eles a história é congelada, a política esvaziada, a economia transformada em categoria metafísica, nosso crítico crítico borrifa-lhes, na conta de bálsamo pacificador, a denúncia do "culpado" de suas desventuras, instituído como o mano capeta que lhes impõe fissuras que resultaram na captura das populações e territórios por espaços nacionais do núcleo central do sistema.

Realmente, como é fácil, gostoso, e faz bem ao amor-próprio ser assim tão interessado em superar o atual estado de coisas. 

Próximo passo será o quê? 

Puxar-se pelos cabelos para ver se consegue levitar? 

É bom que aprenda rápido a fazer isso: o cavalo [vulgo "pessoal da cozinha"] já está submerso na areia movediça e esses cavaleiros da redenção filosofante planetária também já estão até a cintura imersos – é melhor se apressarem em escreverem mais textos a denunciar os logocentrizados eurobrancos falocratas submissos porcos capitalistas feios, sujos, malvados, carecas e fedidos antes que seja tarde demais.


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