Lula e os desafios à crítica postos pela ressaca pós-carnaval do Golpe


RESUMO: 
Temos de partir de um paradoxo, e é dele que trata o texto a seguir: não basta discutir eleições, mas sim entender qual a matéria social com a qual estamos às voltas. Sem esse entendimento, não tem como propor alternativas contra-hegemônicas, pois não estaremos fazendo mais do que propor o retorno do que já se mostrou um impotente e redundante fracasso. 

RESSACA PÓS-CARNAVAL DO GOLPE


"O preço cobrado por 13 anos consecutivos de governo federal, somados ao impressionante conjunto de prefeituras conquistadas e acumuladas, foi um esvaziamento do partido, que perdeu quadros e dirigentes para as funções de Estado. O PT também perdeu autoridade nas discussões políticas, em grande parte monopolizadas por quem se ocupava das funções de governo — ou assumia funções parlamentares.  O golpe contra Dilma, somado ao massacre municipal, modificou essa situação e abriu a necessidade do partido se revalorizar, tornando-se um centro real de discussão e tomada de decisão, o que só irá reforçar sua importância política. O debate sobre a nova direção, tema principal do Congresso, ganha uma importância particular em função disso." [aqui]

PROBLEMA: é um conjunto vazio a descrição "o partido se revalorizar, tornando-se um centro real de discussão e tomada de decisão".

Hegemônico no PT é o mero messianismo salvacionista colado na figura de Lula... 

Nesse sentido, Ciro acerta: é um desserviço a candidatura de Lula.

Não pelos motivos que ele o afirma, não explicitados e facilmente adivinháveis, mas por sabermos ser imobilizador de uma reconstrução das lutas socialistas, antissistêmicas, populares, anticapitalistas. 

Ademais, o esquema que derrubou Dilma não só ficou mais forte, ele tornou-se indestrutível.

A desfaçatez da vitória em 17 de abril, em lance mafioso que envolveu anos de elaboração vazado esses dias, dispensa o baile de máscaras e os andrajos formais de que se cobre a perseguição institucional.

Bastam factóides para a criminalização de tudo que desafine o coro dos golpistas, de Lula a moleques de 14 anos ocupando escolas, de torcida palmeirense a luta de trabalhadores braçais.

A desfaçatez da Exceção Tornada Regra desfila nua nos salões do Estado de Direito sob regojizo e cumplicidade policial, judiciária e midiotizante.

O que resta? 

Parir algo mais incisivo nas pautas.

Algo que mobilize a eleição de um parlamento à esquerda. 

Só tem um porém: nem na maré favorável a isso, seja pós-88, seja nos anos dourados do lulismo de resultados, isso foi mais que improvável.

Que dizer agora, acuados os lutadores por todos os lados, com a maré alta fundamentalista cristã, dos neonazistas e dos setores da agroindústria?

Que dizer da aliança entre esses setores com o capital financeiro, o que resta de industrial e a casta de funcionários públicos de alto escalão no desmanche do parque industrial, da soberania nacional ela mesma sobre seu território, suas leis e suas riquezas, sem o que sequer se pode dizer ser esse não-Estado sequer uma "nação" ou "país", nem na hora de vender camisetas de seleção de futebol, pois o lucro é da Nike?

Com tudo isso, Lula pode até ganhar e pode até assumir, tanto faz: ele e quem ganhar, se não for do esquema, não aprova nem nome de rua num legislativo composto por larápios testa-de-ferro de gangs oligárquicas, multinacionais e a serviço de uma dada potência ocidental [e será impossível qualquer espécie do necessário e usual e rotineiro mensalão sem o qual ninguém governa, nem mesmo o presidente do curínthia, sabendo-se  que não tarda a aparecer outro espertinho com cara de sonso a entregar o esquema para virar novo herói da direita].

Eleição? Mero jogo viciado que só um poderá ganhar.

Mas... qual a alternativa? 

Quem é a figura à esquerda capaz de catalizar alguma coisa de massa?

Fora Lula, I-NE-XIS-TE. 

Ciro ou Requião são menos que caudilhos, eles são um arremedo da figura do jovem-Sarney/anos 60, que era lá então a promessa de ruptura vinda de dentro do sistema consagrada no primeiro filme de Glauber Rocha. Eles não são jovens? Ao menos essa vantagem sobra para suas futuras vítimas, a de não serem tão jovens assim.

Uma coisa é certa à esquerda, é saber lidar com um fato: há um ex-partido de esquerda, o PT e o que quer que ele tenha se tornado, que é a única força política capaz de desempenhar um papel catalizador na atual etapa da história das resistências ao desmanche.

PROBLEMA: estamos a falar de uma força política QUE NÃO SOUBE liderar, nem propor, nem mesmo imaginar uma alternativa à versão hardcore do neoliberalismo que entra de sola desde o 17 de abril, e isso em conjunturas políticas nacionais e econômicas internacionais muito mais amenas e favoráveis.




DESAFIOS À CRÍTICA

Quando a gente escreve, além de ter de dizer as verdades que ninguém quer ouvir E não sejam só obviedades E saber extrai-las de um real que as mascara, tem também de usar essas tais verdades como instrumentos de luta e escrever para quem interessa [cf. As cinco dificuldades para escrever a verdade, de Bertolt Brecht, aqui]

A quem interessa o que se disse? 

Aos afetados por essa situação imposta pelo desmanche, perpassados pelas seguidas derrotas impostas pela gang que legisla no pós-Golpe de 17 de Abril.

Os derrotados não são as esquerdas nem os expulsos do governo.

Os derrotados são a população desse imenso latifúndio e celeiro para ganhos fáceis a alguns.

É a compreensão e mudança da situação dos afetados por essa situação que interessa.

Exemplo? No modo como Ludmila Abilio, em "Uberização do trabalho: subsunção real da viração" [aqui] tece a reconfiguração do trabalho como não-trabalho no fenômeno que ela nomeia como "uberização" ao estudar os moto-boys.

Proponho como resumo do argumento as seguintes palavras da autora: "a dispersão do trabalho não significou perda de controle do capital ou qualquer tipo de democratização no processo de trabalho. Pelo contrário, o que vimos nestas décadas é a enorme centralização do capital acompanhada por novas formas de intensificação do trabalho, extensão do tempo de trabalho e transferência de riscos e custos para os trabalhadores, em formas cada vez mais difíceis de mapear".

Fechando, o cenário desenhado pelas recentes decisões do governo pós-Golpe a esses afetados é o mesmo atravessado por essa moça abaixo.

A nós resta a CRÍTICA, no sentido de extrair do real as suas contradições imanentes.

Crítica é isso, avançar em ideias a compreensão do real, e só então saberemos como lutar pela sua transformação. 

Depois disso, cabe à militância, intelectual inclusive, transformar os saberes acumulados em panfletos mobilizadores.

Sem isso, para ficar na analogia com a imagem abaixo, o Lula-2018, dado o andar da carruagem que agora tem Lex Luthor entre seus cocheiros, é a fitinha azul nos braços da atual conjuntura. 

Não vai resolver muito as coisas. 

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