queremos diferente ou o mais do mesmo que nos sufoque e fim?



Em Ouvir Bolsonaro? [aqui], Priscila Figueiredo toma como ponto de partida uma cena durante a votação do golpe parlamentar que tungou o mandato presidencial, a cena em que um ex-sargento cita o nome Ulstra.

Essa pessoa, conhecida por sua defesa de longa data da Ditadura de 64 e da prática da tortura, torna-se um dos favoritos na próxima ficção a ser encenada nas urnas presidenciais.

Não só a única reação ao gesto do gorila em rede nacional foi... uma cusparada, como o cuspe foi a única coisa punida no episódio.

O  texto, antecipo logo ao eventual leitor, é uma refinada prosa filosófico-sociológica em nada rebaixada ao nível dos impropérios com que eu o sintetizo aqui, e vale a leitura.

De fato, o texto trata das coisas que estão entaladas em nós, às vezes mais caladas que travadas, e passou a hora de reconhecer: mais travadas que o recomendável.

É um alerta.

Já entramos no terreno movediço em que a naturalização de pautas exterminadoras JÁ as tornaram política pública.

As pautas rascunhadas pelo ex-sargento são antecedidas pelos sempre criticamente diagnosticados frutos de uma sociedade escravocrata, frutos bastante presentes na história escrita nas periferias e enfrentada por gerações de lutadores sociais. 

As pautas vomitadas pelo esbirro atualizam a história de horrores e dores postas pelos mandões e seus capatazes a plantar as soluções de exceção como regra e fim. 

Problema é esse "e fim". 

Quando eu o digo, e é contra esse passo que a autora terça suas armas, interverte-se o olhar crítico em cúmplice de algo não meramente reprodutor do passado, mas a atualizar seus horrores a cada volta dos parafusos fincados pelas novas relações sociais e pelos novos modos de extração predatória do valor-riqueza nas gentes e territórios.

Por que cúmplice? 

Porque, afinal, meramente pautado pelo algoz, pelo que, em nota de rodapé, vemos Henrique Monteiro nos lembrar, por exemplo o Zizek gritando que tortura não se discute mas se interdita.

Cúmplices nos tornamos todos quando nos silenciamos condescendentes à enxurrada de sofrimento e cisões "nós x eles matáveis", cisão cuja versão apresentada pelo ex-sargento é um caminhão de areia jogado com a naturalidade de doce brisa em olhos cansados, cisão que guarda no pântano exterminador uma cadeira cativa aos "descartáveis", e aí entra de tudo, até torcedor de futebol.

Por isso o texto é sim um chamamento à ordem.

Sob pena de passarmos a vida a nos ocuparmos em combinar círculos com quadrados ou vice-versa [um desses joguinhos chama-se "ideal normativo de democracia", outro, "estado de direito"], ou seja, a nos adequarmos à pauta posta pelos que nos prometem sete palmos sob o chão, para que não nos reste vermos a árvore crescer pela raiz, que iniciemos, e logo, de modo organizado, coletivo e socialista, a grande recusa de dizer "Não, nós queremos diferente".


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