RIP Toninho & Freitas y algunas otras cositas nada penitenciais


Como se não bastasse a terceirização e a reforma da previdência, fechou o Toninho & Freitas, na dr. Arnaldo. É o fim. [aqui]

Não é porque mudei meu estilo de vida, e minha dieta é paleo, que vou deixar passar em branco essa catástrofe.

Lá tínhamos o MELHOR HAMBÚRGUER POSSÍVEL da face da terra... 

E tinha muito mais que isso, como fosse pouco. 

Tinha clima para encontrar amigos, ou só fechar a noite depois de um dia corrido, pois ficava aberto até começo da madrugada. 

Era muito prático comer lá, assim como dar uma paradinha prum lanche ou pedaço(s) de pizza na padoca da MTV lá no último quarteirão da dr. Arnaldo antes de ser vendida nos idos de 2012 e ela virar só mais uma padaria paulistana. 

Minha filha, quando tinha uns 15 e morava há tempos em Recife, pirou o cabeção quando viu que eu morava a três quarteirões da MTV, e nem perdi tempo falando da pizza gostosa que tinha lá na padaria, fechada àquela altura da madrugada do rolê que dávamos

Quando eu lecionava até as 23h sem ter jantado antes, eu alternava entre ambos, pois morava, desde começo do século até me mudar para Brasília, no mesmo e aprazível apê na Cayowáa [que muitos nativos cis heteros europeizados do entorno insistem em dizer Caióóva) com Padre Vieira ali perto da "zona residencial" da dr. Arnaldo. 

Sim, morei perto do Palmeiras e por mais de uma década e levo para o túmulo essa alegria. De seu clube social fui sócio até mesmo por meses a fio após me mudar para Brasília. Deixei de sê-lo por burrice do setor de cobrança deles. Melhor assim, hoje sou sócio Avanti, e ajudo bancar o meu time, não as piscinas ou quadras de tênis daqueles 300 decrépitos eternos que dominam a política do clube e querem o fim do futebol profissional, como outros velhos conseguiram fazer com a Lusinha ou o Juventus da Rua Javari, ambos, times fortes quando eu era criança, sempre uma pedra no sapato dos Quatro Grandes de SP, e hoje reduzidos Clube Social de bairro.

Diversas vezes passei lá no Toninho & Freitas para comer um desses lanches. Ele ficava numa ponta da dr. Arnaldo, e eu morava na outra ponta dela. 

Tinha também lanches da padaria dona Deola, lá na av. Pompéia, mas ela era meio careira, com a vantagem de ficar aberta até as duas, três da manhã. Os PF perto do São Camilo madrugada adentro são inesquecíveis. O parmeggiana do Deggas indo em direção ao Palmeiras então... Tudo isso onze da noite, uma da manhã.

A cidade de São Paulo tem dessas coisas. 

Comida até de madrugada, e boa. 

Minha biografia, árida mas cheia de nuanças como a cidade em que vivi até 2013, é tecida desses fios de comida cujos farelos tingem o chão dos tempos. 

No que se segue, deixo de fora as dezenas de saídas pós-Reunião das Quartas, recuso aceitar ser um capítulo encerrado de minha vida. 

De resto, quando eu me for, muito mais que isso desaparece junto comigo, mas deixo aqui a lição de casa para "historiadores do cotidiano na periferia do capitalismo" poderem se divertir daqui cinco séculos catalogando "formas de vida" que atestem a "gênese popular dos professores universitários na Era da Barbárie". 

Tinha uma tigela de sopa que eu comia na Amaral Gurgel de madrugada, barata e farta lá na época em que eu cursava sociologia na ESP. Sumiu. 

Outra, na Marquês de Itu ou general Jardim, hora do almoço, pratos de sopa à vontade na hora do almoço, tipo sete reais em dinheiro de hoje. 

Perto da ESP, o bar do Montese e o do português da esquina. 

Anos 80. Muita fome passei nessa época também.

Nos anos 80 você tinha de achar coisas assim, fartas e baratas. 

Como o pedaço de torta dos restos de ontem que eu comia na esquina da Maria Paula com a brigadeiro Luiz Antonio quando cursava direito, ainda na época da ditadura. Ou comprava mortadela mais pãezinhos, ainda em 1980, 1981 e era um banquete.

Eu tinha dezessete anos nessa época, e tudo parecia meio natural, e a gente ia se virando com o que dava. Comecei a fumar, a marca era si-mi-dão-, para matar a fome, aí eu só jantava. Teve um dia, era 1982, fumei um cigarro às sete da noite, a fome era muita. Aí cheguei em casa à meia noite, e não consegui comer, cigarro tinha esse efeito no começo. 

No começo dos anos 80, após o estágio em direito numa das repartições da Prefeitura de SP durante período vespertino lá na av. Liberdade, e da parada nos botecos atrás da Catedral da Sé pra beber, sempre à custa dos outros até cerca das vinte horas e quase sempre vinho barato ou pinga mesmo, eu andava até o Brás pra pegar o trem pra voltar pra casa. 

Da estação até em casa, 25 minutos andando. Dia seguinte, de manhã, o trem das seis e dezenove da manhã pra ir pra faculdade. De noite, não tinha hora para voltar.

Como era longe, conforme os anos 80 foram avançando, passei a pernoitar em república de amigos com frequência, e me tornava visita esporádica na casa de meus pais aonde morava.

No meio da década, bebendo no pós-aula do curso noturno às custas de algum amigo que bancava a breja, enquanto eu ia de 51 ou caninha riopredense, e assim ia ficando na esquina da ESP e bares da região até uma da manhã, e dá-lhe crítica da crítica crítica e do que mais fosse.

Depois, correndo pro churrasco grego no pão francês lá na São João com Praça do Correio de madrugada antes de fazer a viagem ponta a ponta no 1178 da CMTC, Correio-São Miguel Paulista, das 1h25 da manhã. E isso era tudo que eu comia depois da sopa do almoço. 

Pesquisa de mercado, quando rolava, era de onde vinha os caraminguás com que me banquei na primeira metade dos 80. Depois, os bons períodos no CEDEC, até o desmanche de seu perfil pela dobradinha Weffort-Wefraco, transformado em algo como "centro de excelência a discutir os patamares mínimos da consolidação da democracia". Pulei fora, e voltei ao regime da mão-pro-pires/do-pires-pra-amão de entrevistador de gallups e datafolhas da vida. 

Sorte que, no começo dos noventa, peguei aula numa faculdade particular e como professor universitário venho me bancando desde então.

Tantos lugares, horários, pratos, compromissos, carecimentos e alegrias que, após sumirem, formam uma pilha de cadáveres acarinhados numa memória bastante ingrata com tantas coisas que um dia me fizeram bem, que a correria cotidiana não titubeia em maltratá-las sob a poeira do esquecimento.

Ah, os restaurantes que somem! 

Começou pelo fim do Riviera em que eu ia ainda em 81, 83. 

Os restaurantes da Boca do Lixo nos meados dos 80 até o final da década. 

A Rua Aurora tinha uns ótimos. Num deles, perto da esquina da São João, o La Farina, era comum, ainda nos 80, rolava de ir comer a feijoada de sábado lá pelas duas da manhã de sexta pra sábado. Aliás, essa feijoada: diversas vezes a tracei nas tardes de sábado, mas ela foi piorando conforme foi chegando o final da primeira década dos anos 2000 e deixou de ser interessante. 

E o  Bar das Putas, lá no meio da subida da Consolação? Quando cursava a Escola de Sociologia Política em meados dos 80, íamos em grupo pra lá. Bistecona grelhada na brasa antecedida da porção de repolho passada no óleo quente e só. Gourmetizou-se ainda nos anos 90, e mesmo assim volta e meia eu fui lá, mesmo após meu exílio no Cerrado.

E a gourmetização do Bixiga e região da praça Roosevelt então? Começou, com a posse do Montoro, com as rondas da "polícia democrática". Até meados dos 80, as ruas do Bixiga eram uma mistura de Rua da Moeda com região da Torre Malakof de Recife dos fins dos anos 90 começo dos 2000; para bom entendedor, meia palavra basta, deduzam o resto.

Veio as rondas da PM. Efeito disso? Basta citar os Cineclubes Bixiga e Bijou, bem como o Orvietto, o primeiro bar lésbico que frequentei ainda em pleno governo Figueiredo. Tudo fechou. 

Efeito da gourmetização? Cito dois: os bares do Gianotti e a Casa do Norte, gourmetizados ainda nos 90. 

A região hoje, como um todo, perdeu-se. Não cito a Vai-Vai, pois sou palmeirense e por ela nunca me interessei e f*-se, vou logo avisando.

Dizem que a juventude tucana é que domina a região da Roosevelt e Bixiga hoje. Sei lá, pra mim aquilo morreu ainda no começo dos 90.

Como se perderam as repúblicas dos amigos na rua da Abolição ou na Major Diogo ou a do Neneco e seu irmão Cezinha. 

Como se foram o Meia Taça, o Rei das Batidas, o bar do Ceará e as noites na mesa de sinuca quando fiz o ciclo completo da graduação ao doutorado lá no Departamento de Filosofia da USP.

Nunca fomos santos, e penitências deixamos aos órfãos de Papai Noel nessa sexta-feira que dizem ser santa. 

A Via Sacra, aos profanos como nós, é de outra ordem, garanto-lhes.

Envelhecemos. Casamos. Mudamos. Não deixamos endereço. 

Locais e histórias sem fotos nem postagens no face nem instagrans nem nada.

Só o frescor dos momentos entre riso de amigos e agonia dos percalços todos sempre de sobremesa.

No meu caso, a certeza de que, mesmo sozinho, eu podia ir lá comer. E bem. E me sentir de bem com a vida. 

Que dizer do último trago no cigarro Trevo, o único que usei durante boa parte de minha vida de fumante, antes de subir no ônibus? Antes do Plano Cruzado eu fumava Continental Sem Filtro. Em 1986 ele deixou de ser fabricado. Passei a fumar Trevo. Muito, às vezes até enquanto comia caso estivesse num boteco [sim, floquinhos, fumava-se até em corredor de hospital nos anos 80, que dizer à mesa de restaurante ou balcão de bar]. Em 1997, como minha relação com o cigarro ela mesma se gourmetizava, e passei a fumar, ainda era pacote de tabaco desfiado entretanto holandês, Drumm [sempre o pacote de 50g de tabaco a cada três dias] alternando-o, quando não tinha grana, com o Marlboro [três maços por dia]... resolvi parar de fumar.

Seja vendo filme. Tomando sopa. Comendo pedaço de pizza. Caldo de mocotó. O último salgadinho já frio com boteco fechando. Lâmpada sobre o pano verde. Lanche de carnes fatiadas ali na rua com suco grátis. Pastel frio. Cigarro esperando o ônibus. A saideira. 

Fechando o réquiem: no Toninho & Freitas, os lanches eram tão bons e canônicos, que a prática de abrirem estabelecimentos análogos nos espaços ao lado para pegar os desavisados deitou raízes.

RIP Toninho & Freitas. 

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