fechando a noite, ou abrindo?


1.
A política, quando não anulada pela maioria de brucutus assumidamente fascistas que nos cala e fim, o que resta dela já a bom tempo é varrida pelo tsunami do identitarismo, dos CAs a roda de amigos, muitos são os âmbitos de sociabilidades alternativas ao imposto, ao dominante, ao patologicamente assumido como normal que acabaram por se afundar numa luta suicida.

Assistimos ao massacre do que outrora foi a esquerda, o diferente, a turma do "não", e junto com isso, lá se foi o "espírito de contradição organizado".

2.
A infantilóide adoração de particularidades configura um narcisismo político que se deleita em queimar o que não seja espelho.

Essa militância é aguerrida e sabe o que quer.

Não deixa pedra sobre pedra e se comporta tal como os vizinhos na antiga Iugoslávia após o colapso desse país: passam a persegui-los como se não houvesse nem amanhã nem ontem na Prosa do Mundo.

Sua dinâmica política é movida pela desqualificação que estigmatiza e persegue o que não se encaixe em sua "narrativa", e o faz com a mesma fúria denuncista dos macartistas.

A redução de contradições do real à sua euforia legiferante impõe um discurso que se autoinstitui, ao mesmo tempo em que o nega, como o real, a concretude, o materiamente válido, o relevante.

A única dimensão de fato protegida nesse tsunami é própria fúria, reduzida a fim em si que os assola.

Suas agressivas investidas ante tudo o mais impõe-se de modo binário mediante condenações, perseguições e etiquetas.

Os delírios disso que se passa por militância são afirmados como única dimensão de todas as lutas, o lado único do cubo de suas particularidades.

3.
O ativismo identitário reduz a complexidade das dinâmicas de reprodução da dominação, controle e extermínio de populações, territórios, pessoas e coisas a mera questão de gosto, opiniões, pontos de vista particulares.

E esse é o fim da política, a trajar o melhor figurino neoliberal: tudo se passa como se o indivíduo fosse o único responsável por tudo o que vive, fala, aparece, apresenta. 

4.
A visão narcísica do identitarismo na política impressiona pela apropriação de um modo de pensar inclusivo e universalizante, emancipatório e antissistêmico.

Não é a primeira vez que os antagonistas das lutas emancipatórias se apropriam de ideias antissistêmicas para negar qualquer mudança radical.

A primeira manifestação desse procedimento se deu na social-democracia alemã, e resultou na morte de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, entre dezenas de outros.

Outro momento-chave dessa inversão foi sua apropriação pelos "comunistas liberais", como Zizek nomeia os donos de macroempresas que fazem gracinhas com farelos enquanto acumulam e extorquem aqueles milhões de (não)usuários em continentes inteiros que depois serão alvos de suas ONGs.

Destaca-se ainda o passo dado pelos "players" que comandam o jogo do que se passa por "democracias ocidentais", tendo por meta o desmanche de conquistas seculares do mundo de trabalho.

5.
Estamos todos em meio a um cabo de guerra, e perdendo, o que nos remete ao jogo de contradições e forças e (des)equilíbrios pré-1789.

O duro, dói mesmo, é encontrar os que, nesse período todo, se instituíram como identidades em processo de reconhecimento a interverterem  suas lutas em massacre do "inteiramente outro" tendo por meta falarem sozinhos e pronto.

Sobrou a lógica do massacre, espraiada por todos os lados.

A direita sempre dela se valeu, salvo naquele período conhecido por "anos dourados do capitalismo" e isso apenas nos países centrais e somente para a parte "incluída" de suas populações. 

6.
Voltamos ao sprit da Guerra dos Cem  Anos.

A lógica do extermínio foi agasalhada com euforia pelo que um dia foi a "esquerda não oficial".

Porque a avaliação de que a partidarização das lutas sociais impôs restrições, ao invés de se avançar rumo à superação desses limites, o identitarismo retroage em práticas de truculência, perseguição, extermínio e silenciamento, que em nada se diferencia do praticado à larga pelos detentores do poder e da riqueza.

Voltemos a Brecht, na epopéia da "Mãe Coragem e seus filhos", e vejamos o que resta aos esfolados despolitizados enquanto seus líderes e os que entendem suas causas os esfolam em seus nomes.



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