Cabacinhos de todos os tempos e lugares, sigamos desunidos apostando em fantasias lançadas ao vento pelo capital




Me restringindo à quadra local, pode-se antecipar algumas coisas.
Lideranças petistas, e muita bela alma com sensibilidade de esquerda de modo geral, seguem na fantasia de que um [sequer assegurado, mas mesmo que o fosse] processo eleitoral 2018 reverterá num passe de mágica ao retorno da velha (des)ordem.
O problema é a enormidade de sequer desconfiarem da plausibilidade, quanto mais da gravidade e irreversibilidade da evidência de que acabouuuuuuu [dizê-lo com a voz do Faustão, o bobo-alegre de tuas tardes dominicais] a fantasia do compromisso do compromisso de classes assumido sob a roupagem de Nova República em 1985 [com todos os limites que se viu e não vou linkar nada, se vire. Aqui, no caso, a pista é dada pelo Vladimir Safatle].
Tal destruição implica assumir que agora a guerra será total [parafraseando capítulo final de Paulo Arantes, em "O novo tempo do mundo", que é "depois de Junho, a paz será total].
E se trata de uma guerra cujas primeiras baixas FORAM a ideia mesma de direitos e prerrogativas nacionais.
Mas o que cega os puros de espírito, para ficar em registro mais ameno, à recolonização do território tocada a mil? [ou você acha que doação do pré-sal e do que restam de estatais, e com isso, a derradeira pá de cal no que um dia foi chamado de "projeto nacional", é o quê?]
O que os cega é não atinarem que a entidade nada metafísica "mercados" resolveu consumar, em tempo histórico acelerado, o movimento de mata-esfola tampouco interrompido nos anos de trégua do lulismo de resultados.
Como a moda é sustentar empiricamente o que se diz [já falei que não vou linkar nada?, google-se então] farei uma pequena digressão com base nos índices de morte de lideranças rurais, ou as chacinas dos pretos e pobres.
São índices com proporções iraquianas sob invasão americana.
E esses números, embora maquiados, escondem outra coisa.
O apoio, mais que tácito, de maioria dos contingentes sociais.
E, nesses, o apoio da maioria de suas frações.
A taxa de homicídios contra lutadores sociais e por chacinas sabemos-por-quem-causadas ["não sei de nada não sinhô"] cresceu a proporções de guerra civil apenas não declarada nos anos lulo-dilmistas.
Se serve de consolo, tais ocorrências foram acompanhadas, em nível federal, de emplastros e declarações piedosas de costume, tornadas desnecessárias agora.
Os executivos estaduais, pelo contrário, mesmo os alinhados politicamente a Brasília, respaldaram suas polícias e fim.
O caso baiano e o que se passou com Rita Lee num show sirva de lembrança aqui.
Já a desfaçatez dos executivos sob os tacapes bicudos regados a xuxu, farinha de trigo e afins, sequer disfarçaram suas políticas de extermínio em massa.
Essa digressão toda aqui é para, voltando ao desmanche pós-Golpe de 16 de abril, apontar a estupidez política que é apostar num "retorno ao estado de Direito".
Tal "Estado de Direito" interessou enquanto era possível distribuir alguma migalha ao andar de baixo.
Cinto apertou? Então "acabou-se o que era doce", e olha que sabor já era amargo.
Não foi por falta de aviso muito menos de alerta às esquerdas do mundo inteiro.
Me refiro à declaração do Hobsbawm lá imediatamente após crash de 2008 apontando similitudes do cenário que se abria com o das ascensões fascistas nos pós-crash de 29 sem a força das militâncias comunistas nem a lucidez teórica a sintetizar alternativas que outrora houve, o que só agravaria o quadro, destacava o pai de "O longo século XX".
Qual é o diferencial que os jabutis dilmistas não tomaram como variável relevante no faz-de-conta institucional que os tolerou por 14 anos?
Que, há tempos, desde os anos 70, que o petit comitée decidiu acabar com qualquer partição nos lucros.
Decisão tomada, em cada esquina do planeta essa desalentadora e cruel mensagem se impôs segundo uma retórica e dispositivos adequados à situação local [o livro da Naomi Klein, "A doutrina do choque", pode ajudar a entender isso].
É para para fazer vistas grossas à última das guinadas em nível planetário, a pós 1975???
Então tá, ao invés de voltarmos à Ellen Wood, em seu "Democracia contra capitalismo", é para fazer vistas grossas a sutilezas?
Disso eu entendo, e resolvo rapidinho o dilema.
Em sobrevôo histórico, a declaração de guerra contra os habitantes dessa mancha de terra hoje ainda chamada de Brasil atualiza, em nova chave, o "mais do mesmo" que vigorou, com alguns soluços, desde 1500 [Freyre do "Casa Grande & Senzala, Sérgio Buarque do Raízes do Brasil e do Da Monarquia à República, ou mesmo, para quem não tem muito tempo, o Darcy Ribeiro de "Viva o povo brasileiro", ajudam bastante a preencher de evidências empíricas esse diagnóstico].
Sabe aquele dia em que um peladão gritou para três manchas boiando na água que surgiram no horizonte lá na altura de Ilhéus: dels chegou, uhuuuu?
Sabe aquele momento em que um bando de piolhento assassino encardido morto de fome pode trazer de boas, e a pólvora ajudou foi muito na coisa toda, a civilização do dels-dinheiro para esse até então aprazível recanto virgem?
É dessa cena que me lembro ante a placidez da classe média com o derretimento de todos e cada um dos vetores que lhe garantem a boa-vida de hoje.
É ela que está na gênese da indiferença dos pobres, que continuam vivendo como se nada estivesse acontecendo.
É ela que faz parecer suficiente os mumunhos e resmungos de sempre a se referir à entidade metafísica povo brasileiro como se a pessoa tivesse algo, que não seu sangue/suor/trabalho vivo doado a troco de farelo, que a ligasse aos Marinho, Setúbals ou Maggis da vida.
Ante tais fantasias, o que pensar?
Que formamos um povo de cabacinhos crédulos e seguimos apostando em miragens e milagres [o pior de tudo é ver o Milagre do Pré-sal ser abortado pelos que um dia estudaram a engrenagem da coisa toda decifrada pelos clássicos do pensamento brasileiro que citei parágrafos acima].
O que temos?
Que pouco importa a posição de classe, a história recente, e pior, pouco importa ao menos a manutenção operante de esquemas que garanta os espelhos e miçangas da vez, no caso hoje, carro, casa, linha branca, viagem, celular, balada...
Numa inversão maluca do conhecido panfleto, publicado em 1848 [por um moleque de 30 em parceria com seu amigo de vida toda à época com 26 anos], um Manifesto que se iniciava falando de um espectro que rondava a Europa, hoje a máxima é:
"Cabacinhos de todos os tempos e lugares, sigamos desunidos apostando em fantasias com a solidez de bolhas de sabão lançadas ao vento pelo capital".
Quanto aos grilhões, que fecham o tal do panfleto como sendo a única coisa a perder caso os trabalhadores resolvessem ficar pistolas e meter o louco, quanto aos grilhões que nos prendem a isso tudo, que fazer?
Esses grilhões nunca tiveram a vida tão mansa como nos tempos que correm.
Experimente, não criticá-los, apenas apontar para eles a balbuciar algo, e a fúria dos integrados apocalípticos e a dos apocalíticos integrados encontrará o seu inimigo comum, no caso, os poucos que se recusam a continuar a jogar esse jogo de cartas marcadas.
Se serve de consolo, ao menos quanto aos obstáculos, cito aqui o Goleiro Marcos: cadê a novidade?


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