Caso Marielle: O lugar de fala na história escrita a tiros, Por Coletivo Parede


A execução da Marielle Franco e o “lugar de fala” dos vencedores da história escrita a tiros na cabeça dos que ousam não se calar

Coletivo Parede (originalmente publicado aqui)

Antes que a memória de Marielle Franco caia no esquecimento como centenas de pessoas que deixaram de fazer parte da história em intenso movimento de luta, precisamos, antes de tudo, perceber que um espaço de fala ainda continua em aberto, e enquanto continuar, como em todo espaço de fala, deve prevalecer o dito. E vamos dizer. E escutar.

Marielle, gente como a gente, pobre como nós, nasceu no Rio de Janeiro no final dos anos 80, filha de dona Marinete e do senhor Antônio, deu seus primeiros passos no Complexo da Maré, sentiu dificuldades com a família, fez, do som das balas, canto e força para seguir lutando. Assistiu o canto da morte ao perder uma amiga por conta de uma bala perdida. Foi mãe solteira aos 18. Fez cursinho comunitário. Após ingressar em uma universidade pública para cursar Ciências Sociais em 2002, não resolveu cuidar da vida privada e virar as costas ao seu passado. Volta-se para seu lugar social de origem, e passa a fazer política de base. Foi assim que a campanha de Freixo, na década passada ainda, a descobriu, e ela passa a integrar seu corpo de assessores.

Sua competência e habilidade no manejo das tarefas do cotidiano de um mandato parlamentar a fez subir degraus na vida partidária.

Tendo como bandeira a luta por direitos da mulher, do pobre das comunidades, dos LGBTs, dos Direitos Humanos, elege-se vereadora, pelo PSOL, com 46 mil votos vindos do Povo do Morro, só 2.500 deles da Maré, votação espalhada por várias comunidades da cidade.

Vereadora da segunda maior cidade do país, que foi sua capital por mais de cem anos, desde tempos do Império, a cidade brasileira com maior visibilidade pelo planeta, promove em seu mandato uma militância contínua contra a repressão que é parte constituinte de um país que mal saiu do contexto e efeitos da Ditadura Militar de 1964, pois movida por arbítrio e exceções que nunca deixaram de existir longe do Povo do Asfalto, para o Povo do Morro, para o andar de baixo da sociedade.

Marielle Franco é morta e, em sua companhia, morre também o motorista Anderson Pedro Gomes.

Um recado claro foi dado pelos “donos da cidade” desde sempre: quem essa favelada, preta, mulher, pensa que é para vir aqui dizer para a gente o que podemos ou não fazer?

Foi executada no Centro do RJ, em local de grande movimento, uma ação que, por seu perfil e pelo perfil da vítima, queria deixar um recado bem claro. Primeiro os fatos. Foi executada por disparos que exigem habilidades de um treinamento militar bem específico: um carro em movimento dispara nove tiros na direção do vidro escuro onde se sentava; das cinco balas que acertam nela, quatro são na cabeça ou pescoço. Os tiros que não a acertam deixam outro recado claro: quem estiver com gente como ela, está na linha de fogo. Seu motorista foi o “porta-voz” desse segundo recado. Os demais tiros que não acertaram nela, acertaram na barra lateral de metal a poucos centímetros de seu corpo. Os primeiros transeuntes que atenderam a sobrevivente dessa “ação cirúrgica”, a sua assessora, relatam que ela, em estado de choque, ferida apenas pelos estilhaços, se perguntava o que aconteceu, sem entender nada. Não ouviu os disparos, o que sugere uso de silenciador na arma empregada. Já se sabe que as balas são de um lote destinado à PF roubado em 2006, e que já foi usado em uma chacina em Osasco (Grande São Paulo) em que PMs são suspeitos e já há relatos que apontam que teriam repassado parte dessa carga a colegas da corporação carioca.

O relato de teor jornalístico detalhado acima da execução de que foi vítima, escrito com o que se sabe passados três dias da ação terrorista, visa sensibilizar o leitor incauto para algumas de suas dimensões e implicações a serem desenvolvidas a seguir, noves fora as já bastante alardeadas pela grande mídia, cuja narrativa busca compor, sob o registro das emoções, o repertório a ser citado pelo grande público.

Alcemo-nos para além da narrativa midiatizada.

Foi sim um atentado político, como os muitos que outros de que são vítimas, só nesse século, centenas de lideranças de movimentos populares na linha de frente na mobilização popular pela defesa de direitos sociais básicos, por denúncias de irregularidades, contra injustiças impostas por organizações empresariais, latifúndios, instituições do estado, contra líderes políticos regionais incomodados pela incômoda visibilidade que lhes arranhe a reprodução do que esteja sendo denunciado.

Foi sim um atentado terrorista que manda um recado claro à porção a mais frágil e atacada dentre todos os fragilizados e precarizados.

Foi um recado escrito a bala, como tantos outros, para outras tantas potenciais Marielles abandonarem eventuais trajetórias de luta e resistência, para que se restrinjam a trabalhos como o de domésticas na área de serviço do Povo do Asfalto às voltas com suas roupas sujas, e sem chiar.

Marielle foi escolhida a dedo para passar esse recado, pois reúne em si o conjunto dos traços de tantas outras vítimas silenciadas e ignoradas: mulher, preta, oriunda da favela, de esquerda, bissexual e militante política.

Quase uma Capitu dos nossos tempos, porque ousou pensar com autonomia.

Como não podia deixar de ser a certo senso tornado comum, “Capitu é culpada”, basta ler os comentários nos portais, ou o post da tal desembargadora que, amanhã ou depois, pode estar a julgar eventuais terroristas que venham a ser identificados, ou antes declarados culpados?, neste ou em atentados análogos.

Uma Capitu à altura da luta de classes que incide sobre o corpo político que ela representa.

Uma Capitu executada a quatro quilômetros da reunião com mulheres negras da qual acabara de participar, num mês da mulher, em meio à jornada de 21 dias de discussão da questão racial.

Precisa desenhar ou ficou claro que um recado foi dado? Qual? “Vocês só são autorizados a ir até aqui, não deixaremos passar dessa linha, ela ousou passar, nosso recado foi dado, alguma dúvida?”

Recado que é rotina nos morros, nas quebradas, mas também na Colômbia, no México, mas também na África, na Palestina. E agora foi passado, e não seja por falta de testemunhas, no movimentado Centro da cidade cartão-postal, como nos alertam escutas mais atentas horas após o fuzilamento da vereadora.

O recado: sua execução quer silenciar a voz de quem se propõe a agir coletivamente no enfrentamento das aberrações de que padece a parcela social sem-voz representada por ela lá na Câmara.

Executou-se uma mulher como inúmeras outras mulheres o são todos os dias.

Executou-se a “preta metida” que ousou, por seus méritos, acreditar ser possível mudar a relação do Povo do Morro com algumas demandas sociais básicas

Calou-se uma representante de um movimento político de esquerda que combate o contexto repressivo que é regra entre os que a elegeram.

Executou-se também a grande “bandeira” da direita usada para pacificar corações e mentes do Povo do Morro: uma mãe solteira preta e pobre faz cursinho comunitário, gradua-se, sai da Maré para a Tijuca, passa a ganhar bem. Sua trajetória materializa a meritocracia defendida em prosa e verso pelos que, com seu corpo ainda quente, desqualificam de todas as maneiras o seu percurso, que despolitizam a continuidade de sua luta, memória e legados.

Morta ela, mas não morre as ideias pelas quais se bateu.

Enterrada ela, a mulher-preta-favelada, em meio a clamores populares... e sabe o que tinha do lado da praça, na mesma hora? Juízes estavam em greve por uma incorporação sem impostos de mais quatro mil dinheiros aos seus outros 35 mil recebidos como salário-base no ingresso da carreira, muitos deles recebendo bem mais que isso.

Chegamos ao ponto que nos interessa destacar: dizem que acabou a luta de classes.

Sim, concordamos: acabou para quem executa a representante política no exercício de um mandato político conquistado no interior das regras da democracia formal.

Sim, acabou a luta de classes para quem silencie atividades de militância democrática com conteúdos emancipatórios populares aportados ao cotidiano daqueles para os quais seu extermínio, como seres matáveis, sempre foi regra.

Acabou para quem vive a fantasia de cemitérios lotados da mais barata de todas as carnes, a carne preta.

“Acabou só que não”, comecemos a tecer nossa tese: a luta de classes não acabou para aquela guerreira que, aos 38 anos, no dia 14 de março de 2018 às 21h30 de uma noite aparentemente normal, foi executada com vários tiros na cabeça e um no pescoço na vitrine dessa aberração política totalitária que é a ocupação militar de territórios com problemas sociais.

Não acabou para aquela que foi executada no meio de uma intervenção cujo esbirro que a comanda já defendeu seja exportada para outras regiões do território nacional como solução de problemas sociais e tampão para políticas públicas equivocadas nas quais se insiste já há décadas sem resultados que não os eleitorais de sempre a quem defenda a intervenção militar.

Não acabou a luta de classes só porque foi ela assassinada dias após denunciar mais uma ação violenta do batalhão 41, no Morro do Acari.

Não acabou só porque foi mais uma vítima do contexto que denunciava.

Só porque foi assassinada na mesma semana em que um representante de outro movimento popular foi assassinado na Amazônia após denunciar empresa norueguesa que despeja lixo tóxico no rio.

Não acabou só porque a história é contada pelos vencedores.

Mas sim, terá acabado enquanto a história de Marielle Franco permaneça só mais um caso de morte não resolvida de mais um militante político.

Pretenderão ainda que tenha acabado caso inventem alguns fardados de baixo escalão como assassinos dela [e ai deles se resolverem dar com a língua nos dentes] e darem o assunto por encerrado, caso as pressões internacionais não cessem.

Sim, a luta de classes terá acabado caso fiquemos só com as consequências do que Mariella denunciava, no caso, sua própria morte, não nos voltemos para as causas que levam a tais assassinatos, ao que ela denunciava, combatia, criticava.

Terá acabado enquanto sua execução se restringir a ser mais um verbete popular, o caso da moça preta pobre ex-favelada que virou liderança e foi violentamente assassinada no centro de uma megalópole na periferia do capitalismo.

Terá acabado a luta de classes se tudo isso não passar do caso da moça que teve a ousadia de saber e combater muito mais do que deveria intuir e questionar e pagou pelo castigo de muito enfrentar e mobilizar.

Como reverter esse “acabamento”?

Atenhamo-nos aos fatos.

Sejamos materialistas.

Na hora de colocar perguntas, por exemplo: a quem interessa esse tipo de ação?

Ou quando identificamos o recado que foi escrito a bala na testa da mulher preta e pobre, e na de outros, como diria a canção, tantos pretos e na testa de outros pretos de tão pobres que apostam na via política de luta no interior do jogo constituído como Estado de Direito.

Qual recado foi escrito a tiros?

Cale-se.

Só há um modo de evitar, como ensina outra canção tão à altura de nossos tempos, esse cálice servido: negarmos esse recado, enfrentar o cale-se, superá-lo.

Sob pena de sua morte e a de tantas outras serem em vão.

Sob pena de sermos cúmplices de seus assassinos.

Dos vencedores.

Não nos interessa o percurso tomado pelos processos investigativos da morte de Marielle Franco. Tampouco como serão elaborados, ou o que abafarão, nem mesmo que seu caso seja arquivado como “mais uma”. Tudo isso seria uma segunda-feira normal por aqui. A golpeada presidenta, pelo contexto em que se deu a coisa e pelo que se seguiu, sirva-nos de lição quanto ao que nos espera caso coloquemos nossos ovos na “expectativa jurídica”.

Precisamos dar um passo para além da constatação ou enfrentamento meramente jurídicos do imbróglio, que, como tal, tem a potência de uma barrinha de manteiga contra afiada lâmina que a corte.

Precisamos, antes, politizá-lo, o caso todo, suas causas, o que dele se diz, o que se silencia.

É de política que se trata, e foi no exercício da luta política que ela e todas as outras vozes foram silenciadas ou executadas ou amedrontadas.

A única maneira de não trairmos nossos mortos é assumir a luta política como processo contínuo.

Horas após a sua chacina ouviu-se a voz de milhares de pessoas que saíram às ruas para homenagear Marielle.

Nossa tarefa é encontrar modos de fazer falar essas vozes.

Sob pena de “lugares de fala”, como o de Mariella e de tantos outros que tombaram, tornarem-se mais uma voz silenciada.

Como fazer falar as vozes, tantas vozes, todos os dias abafadas, silenciadas, violentadas, assediadas, precarizadas, sub-remuneradas, estupradas, desassistidas, atacadas, desqualificadas, ignoradas?

A inquietação que ganha ruas e consciências é a de uma vontade coletivamente organizada de dizer “o que queremos”.

Há dois séculos, essa inquietação já atendia pelo nome de “espírito de contradição organizado”.

Seja ele o ponto de partida e motor que impulsione a luta política popular, antissistêmica, socialista e libertária.

Seja ele o timbre que anime o som da voz que por toda a nossa trajetória esteja a ecoar outras tantas falas e escutas coletivamente organizadas, emancipatórias, horizontalizadas, democráticas, igualitárias e populares.

(to be continued)


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